DO ESPLENDOR À DECADÊNCIA –– por Carlos Loures

Este post começou por ser um comentário a um outro comentário feito por Josep Anton Vidal que referia a decadência que atingiu a Península e terminava com um link para um interessante artigo de Germà Bel no La Vanguardia – “Desmitificando desmitificações. Torna-se necessário, agora sim, desmitificar um mito: o do declínio da Catalunha no século  XVII; o que estava em declínio era o centro peninsular.” Aqui deixo o link

http://www.lavanguardia.com/opinion/articulos/20130115/54360867591/desmitificando-desmitificaciones-germa-bel.html#ixzz2IBZfvGek

O declínio que marca o fim do “Século de Ouro” para o império dos Habsburgo, parece ter começado para Portugal com a rotunda derrota militar em Alcácer Quibir. Em todo o caso, essa derrota mais do que iniciar a decadência do império português, foi já um claro sinal de que esse declínio estava lançado e nenhuma vitória militar o teria podido evitar. As causas da decadência eram exteriores e globais. Como numa entrevista dada a um jornal, o escritor e humanista catalão José Luis Sampedro fazia notar, o sistema capitalista foi desencadeado pelos Descobrimentos.

A própria globalização, a mundialização da economia, terá tido início com aquilo que as terras recém-descobertas proporcionaram – matérias-primas novas e abundantes e mão-de-obra escrava e, logo, muito barata. Num livro de que já tenho falado – Plantas e Conhecimento do Mundo nos Séculos XV e XVI, de Isabel Castro Henriques e Alfredo Margarido, descreve-se o que pode ser considerado uma «revolução biológica» – a transplantação de espécies entre os continentes que, sobretudo os portugueses, levaram a cabo com o acompanhamento científico que o estado dos conhecimentos, à época, permitia. Sem a «revolução biológica», a Revolução Industrial não teria ocorrido ou teria tido um desenvolvimento diferente.

A decadência económica marcada pelo fim do ciclo histórico de esplendor, pelo menos aparente, criou no imaginário colectivo dos portugueses um sentimento de nostalgia pelo passado que Eduardo Lourenço bem descreve. – “A saudade, descida no coração do tempo para resgatar o tempo – o nosso, pessoal ou colectivo –, é sempre uma lâmpada que recusa apagar-se no meio da Noite”.

Alexandre Herculano fizera já uma abordagem correcta do tema, mas foi  Antero de Quental que, numa das Conferências do Casino Lisbonense, realizadas em Maio de 1871,  fez uma brilhante intervenção – As Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. Antero expôs de forma clara e sintética a sua tese. Apontou três causas capitais – a radicalização do catolicismo pelo Concílio de Trento como reacção à Reforma; a imposição do absolutismo, em detrimento do poder dos concelhos; em terceiro lugar o industrialismo a que os próprios Descobrimentos deram lugar e que criou um novo sistema económico, alterando substancialmente as relações de produção. Aquilo a que hoje chamaríamos uma mudança de paradigma.

Como disse, em Portugal, essa decadência deu ao imaginário nacional um sentimento de nostalgia – a grandeza do passado e a apagada e vil tristeza do presente. A chamada Geração de 70 (e não só) ocupou-se do estudo desse fenómeno que conduziram as nações hispânicas do esplendor a uma situação de atraso relativamente não só as nações europeias como também  a outras como os Estados Unidos, o Canadá ou a Austrália. «A preponderância, que até então exercêramos nos negócios da Europa, desaparece para dar lugar à insignificância e à impotência. Nações novas ou obscuras erguem-se, e conquistam no mundo, à nossa custa, a influência de que nos mostráramos indignos.», diz Antero na referida conferência.

Na realidade, para povos católicos como eram os da Península, a radicalização religiosa como reacção à Reforma, foi um factor de atraso. A centralização do poder político, as monarquias absolutas, foi outra barreira à expansão do conhecimento; a industrialização arrasou economias que se baseavam na produção agrícola, na pastorícia e em ofícios e indústrias artesanais. As Conferências do Casino, particularmente a exposição de Antero (mas há outras muito importantes, como a de Adolfo Coelho, por exemplo, acentuando o papel obscurantista da Igreja na organização dos curricula escolares), constituem uma explicação objectiva das causas da decadência.  Este tema tem sido acompanhado por sociólogos, humanistas, historiadores. Entre os mais recentes, além do já referido Eduardo Lourenço (principalmente em O Labirinto da Saudade), o trabalho do argonauta Fernando Pereira Marques – Sobre as causas do atraso nacional – onde o autor faz um levantamento dos motivos por que Portugal chega a um mundo dominado pela mercadização em posição desvantajosa. Embora muito já tenha sido dito, muito há ainda a dizer sobre este tema.

3 Comments

    1. Certamente. Porém, o diagnóstico feito pela Geração de 70 é, em muitos aspectos, acertado. A historiografia subsidiária do regime salazarista, essa sim, significou um retrocesso e muitos das grosseiras erros apontados por Adolfo Coelho em 1871 na reestruturação do Ensino, foram cometidos pelos pedagogos do Estado Novo. Antero foi particularmente inteligente na detecção das causas da decadência – o reforço do poder central, destruiu a força dos concelhos que nos vinha da Idade Média – César de Oliveira, o historiador que mais aprofundou essa área, confirmou, de certo modo, a tese anteriana; a contra-Reforma, agravou a acção repressiva do catolicismo – pergunto-me se o facto de a Catalunha, como diz Germà Bel, ter vivido o declínio de uma forma mitigada, não corresponderá a uma forma diferente de o povo catalão se relacionar com a fé cristã? – A passagem de um sistema económico arcaico, tradicional, para uma exploração intensiva da mão-de-obra r psrs um papel crescente da máquina no mundo da produção, foi um inegável factor de desestabilização – e volto a perguntar-me se uma maior capacidade de modernização industrial por parte da Catalunha, não será outro factor a considerar. Enfim, este tema, como dizemos aqui, «tem pano para manngas» – eu só quis, para já, lembrar que numa época de crise profunda, com cidades como Lisboa, onde se concentrava parte significativa da débil industrialização do país, a ser invadidas por camponeses que abandonavam as terras, houve quem fosse capaz de avaliar as causas da disfunção social que estavam na base dessa crise.

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