Tenho uma pequena hérnia no estômago. Não me incomoda mas decido-me pela operação, disseram-me que não havia perigo, apenas 24 horas de hospital.
O anestesista injeta produto incompatível com o meu organismo, quase me apaga. Levam-me para os Cuidados Intensivos e avisam a minha mulher que em breve será viúva. Ela vai para casa, senta-se ao piano e enquanto toca o andante expressivo de uma sonatina de Beethoven, vai entoando acorda Fernando, acorda…
Pressinto o abismo, agarro-me à vida.
Acabarei por ficar dois meses no hospital, não as prometidas 24 horas.
Estou melhor e querem pôr-me fraldas. Recuso. Quando as tripas ou a bexiga me apertam, se não reparam saio da cama e, aos tropeços, vou à casa de banho no fim do corredor. Na ida e na volta tombo várias vezes. O chefe dos enfermeiros levanta-me. Censura:
– Teimoso que você é…
Respondo:
– É isso mesmo! Estou agarrado à vida, teimosia, teimosia…
Grande Beethoven e quem o toca bem. Gostei. Parabéns.