O ano passado a União Europeia recebeu o prémio Nobel da Paz. Alguns aplaudiram, outros espantaram-se, e uns tantos ficaram ainda mais preocupados do que já estavam.
A primeira questão é se a Europa tem estado realmente em paz. A resposta é não. Basta lembrar os medonhos conflitos que levaram á dissolução da Iugoslávia para chegar a essa conclusão. Noutros pontos do continente há problemas sérios. O reino espanhol continua a não encarar de frente o facto de que detém várias nações sob a sua alçada, mas tudo indica que vai ter de o fazer em breve, e a questão da Irlanda do Norte, após uns anos de trégua, parece querer reacender-se. Entretanto, a guerra no Mali, os atentados na Argélia, trazem-nos dúvidas sobre se a paz na Europa poderá ser afectado pelo que se passa nas zonas vizinhas. E tropas europeias estão presentes em conflitos que muito não hesitam em classificar como neocoloniais.
Segunda questão, mais importante ainda, e a paz social? Para muitos, já não restam dúvidas de que as políticas de austeridade são, na realidade, políticas de repressão. Os responsáveis pela atribuição do prémio Nobel da Paz terão reflectido neste problema? Para eles, a paz só será quebrada quando se declararem conflitos intergovernamentais? Os protestos em massa e as ameaças de revolta não constituem perturbações da vida social e política suficientes? Com certeza que sim. Foram proferidas opiniões de que a atribuição deste prémio Nobel foi mais um aviso, em várias direcções, do que propriamente um prémio. É difícil saber se essas opiniões têm fundamento. Mas a realidade é que as tensões sociais causadas pelas políticas chamadas de austeridade não promovem a paz.
A paz intergovernamental na Europa tem assentado em dois pilares. O entendimento entre a França e a Alemanha, e o guarda-chuva norte-americano. O primeiro subsiste à custa de uma cada vez maior subordinação da primeira à segunda, o segundo está cada vez mais ameaçado pelo militarismo da direita dos EUA, muito empenhada no escudo nuclear no Leste Europeu, e na desagregação do Médio Oriente, que também visa a Rússia. Esta também faz parte da Europa. Mesmo com Gérard Depardieu e Brigitte Bardot. Parece que desde o General De Gaulle ninguém se lembra de que a Europa vai até aos Urais. Os russos agora até querem apoiar a intervenção no Mali. Enfim!

