GRÉCIA-ALEMANHA: QUEM DEVE A QUEM? (2ª PARTE): OS CREDORES PROTEGIDOS, O POVO GREGO SACRIFICADO. Por ÉRIC TOUSSAINT

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

Veja-se  o primeiro artigo da série: “Grécia-Alemanha: quem deve a quem ? “(1)  A anulação da  dívida alemã concedida  em  Londres em 1953”, também de Éric Toussaint, publicado em A Viagem dos Argonautas, a 17 e 18 do corrente mês de Janeiro.

 Parte I

É uma obrigação moral levantarmo-nos  contra o discurso enganoso a propósito da pretensa  solidariedade de que fariam prova    os governantes dos países mais fortes da zona  euro para com o povo grego e para outros países igualmente fragilizados   (Irlanda, Portugal, Espanha…). Os factos contradizem as  suas palavras retransmitidas de forma permanente pelos dominantes meios ditos de comunicação social

Comecemos por uma pequena verificação  prática. Liguemo-nos à Internet  e escreva-se no motor de busca  “a Grécia recebeu”. Verificar-se-á  como  há  muitos meios de comunicação a retomarem  o refrão de que este país está sob  uma considerável ajuda.  Por exemplo, Hans – Werner Sinn |1|, um dos economistas mais influentes na Alemanha, conselheiro do governo de Angela Merkel, não hesita em dizer: “a Grécia recebeu ajuda de 460 mil milhões de euros através de várias disposições.  A ajuda até agora concedida à  Grécia  é,  portanto, equivalente a 214% do seu PIB, que é cerca de dez vezes mais do que o que a Alemanha beneficiou através do plano Marshall. Berlim forneceu cerca de um quarto da ajuda prestada à Grécia,  ou seja 115 mil milhões de euros, representando pelo menos dez planos Marshall ou duas vezes e meia o que foi concedido em  Londres. » |2|

Todo este  cálculo está errado. A Grécia não recebeu, de modo nenhum,  um financiamento de um tal montante e o que ela recebeu não pode ser seriamente considerado  como ajuda. Hans-Werner Sinn  coloca de forma  escandalosa no mesmo pé a Alemanha no final da Segunda Guerra Mundial que os nazis  tinham  causado e a Grécia da década de 2000. Além disso, salta por cima das somas reclamadas e com razão pela Grécia à  Alemanha na sequêcnia dos danos sofridos durante a ocupação nazi |3| assim como o empréstimo forçado  que a Alemanha nazi  impôs  à  Grécia.  A  dívida da Alemanha para com a  Grécia   atinge pelo menos 100  mil milhões de euros. Como escreve o site A l’encontre  na base na obra de Karl Heinz Roth, historiador da pilhagem da Europa ocupada pelos nazis alemães|4|: «A Alemanha não pagou à  Grécia mais do que a sexagésima parte (ou seja 1,67%) do que ela lhe devia como compensação para a devastação da ocupação ocorrida entre 1941-1944.»

Uma série de argumentos sólidos devem ser apresentados  para demonstrar a desonestidade intelectual das observações feitas por Hans-Werner Sinn, assim como das afirmações  dos governantes alemães e dos meios de comunicação social ao seu serviço. O que se segue  aplica-se  não só para a Grécia, e poder-se-ia  realizar um exercício em certos pontos semelhante sobre o alegado auxílio para os países do antigo bloco de Leste que fazem parte da UE, ou ainda sobre  Portugal, a Irlanda, a Espanha, … Mas, como será mostrado na terceira parte desta série de artigos, as relações entre a Alemanha e a Grécia tem uma história que merece ser bem tida em conta.

  1. Os planos de ajuda servem  os interesses dos bancos privados, não os interesses do povo grego

Os planos de “ajuda”   postos em prática desde Maio de 2010 foram primeiramente utilizados  para proteger os interesses dos bancos privados dos países mais fortes da zona  euro, que tinham  aumentado enormemente os seus empréstimos tanto ao sector privado como ao sector público grego durante os anos 2000.  Os empréstimos  concedidos à Grécia pela Tróika desde  2010 foram utilizados  para pagar aos bancos privados ocidentais e permitir-lhes assim sair desta situação com as suas perdas limitadas  ao mínimo. Estes empréstimos foram  também utilizados  para recapitalizar os bancos privados gregos, alguns dos quais são filiais de bancos estrangeiros, em particular franceses.

Os planos de “ajuda” foram usados para proteger os interesses dos bancos privados nos países mais fortes da zona do euro

A dívida do sector privado grego desenvolveu-se largamente na década dos anos 2000. As famílias, para quem os  bancos e todo   o sector  comercial privado (retalho, grande distribuição,  automóvel,  construção,…) ofereciam condições atractivas, têm recorrido ao endividamento massivo, tal como as  empresas não-financeiras e os  bancos,  que podiam contrair empréstimos  a baixo custo (as taxas de juro eram baixas  e com  uma taxa de inflação maior do que a verificada nos  países mais industrializados da União Europeia como a Alemanha e a  França, Benelux). Este endividamento privado  tem sido o motor da economia da Grécia. O quadro abaixo mostra que a adesão da Grécia  à zona euro em 2001 aumentou fortemente a entrada de capitais financeiros  que correspondem às aplicações de carteira ou a créditos concedidos  (Não-IDE na tabela, ou seja, são as entradas que não correspondem aos investimentos de longo prazo) enquanto que o investimento a longo prazo (IED – investimento estrangeiro directo) estagnou.

Evolução dos compromissos dos bancos da Europa Ocidental contra a Grécia (bilhões de dólares)

Os empréstimos concedidos pelos governos

Toussaint - I

Fonte: FMI |5|

Com a enorme liquidez disponibilizada pelos  bancos centrais na Europa ocidental entre  2007-2009, os bancos do Ocidente europeu (especialmente bancos alemães e franceses, mas também belgas, holandeses, britânicos, luxemburgueses,  irlandeses, …) emprestaram  massivamente à  Grécia (ao sector privado e às autoridades públicas). Depois de 2001, a adesão da Grécia ao euro valeu-lhe  a confiança dos banqueiros, pensando  que os grandes países europeus viriam em sua ajuda   no caso de estes terem  problemas. Eles não estavam preocupados com a capacidade da Grécia em  reembolsar o capital emprestado a médio prazo e consideraram  que  poderiam assumir riscos muito elevados na Grécia. A história deu-lhes razão até à data: a Comissão Europeia e, nomeadamente, os governos francês e alemão apoiaram sem falha os bancos  privados da Europa Ocidental.

O gráfico abaixo mostra que os bancos europeus ocidentais aumentaram os  empréstimos para a Grécia uma vez entre Dezembro de 2005 e Março de 2007 (durante este período, o volume de empréstimos concedidos aumentou de 50%, passando de um pouco menos de 80 mil milhões para 120 mil milhões de dólares). Enquanto que a crise dita de  subprimes irrompera nos Estados Unidos, os créditos  concedidos  de novo  aumentaram fortemente (+ 33%) entre Junho de 2007 e Verão 2008 (passando de  120 para 160 mil milhões de dólares passando), em seguida, eles são mantidos a um nível muito alto (120 mil milhões de dólares). Isso significa que os bancos privados ocidentais utilizaram o dinheiro que  lhes emprestaram massivamente  a baixo custo quer o Banco Central Europeu quer o Federal Reserve dos EUA para aumentar os seus empréstimos a países como a Grécia |6|. Aí,  as taxas  são mais elevadas, e os bancos poderiam obter lucros elevados. Os bancos privados têm pois uma pesada parte de responsabilidade no endividamento excessivo da Grécia.

Evolução das posições assumidas pelos bancos da Europa Ocidental  relativamente à Grécia (em  milhares de milhões de dólares )

Toussaint - II

Fonte : BRI – BIS consolidated statistics, ultimate risk basis |7|

Como mostra o gráfico abaixo, em 2008 (o que é válido até  2010 incluído), a esmagadora maioria da dívida grega era detida  pelos bancos europeus, a começar  pelos  bancos, franceses, alemães, italianos, belgas, holandeses, luxemburgueses e britânicos.

Detentores estrangeiros (quase que exclusivamente bancos estrangeiros e outras sociedades  financeiras) dos títulos da dívida grega (final de 2008) |8|

Toussaint - III

Os empréstimos concedidos pelos  governos (seja directamente ou seja através do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira,  o FEEF, postos em prática a partir de 2010, tinham, na verdade,  por objectivo assegurar que a Grécia continuasse a pagar aos bancos dos países da Europa Ocidental (bancos franceses e alemães que eram os mais expostos  na Grécia) da zona euro. Em suma, o dinheiro emprestado à    Grécia regressa aos  bancos alemães, franceses e a outros fundos em nome de um reembolso dos títulos gregos que esses bancos compraram em massa até ao final de 2009 |9|. Acontece o mesmo também  na  tesouraria dos países credores, na do BCE, FMI e do FEEF (veja-se  mais abaixo).

 (continua)

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