EDITORIAL – O VESTIDO VERMELHO DE MICHELLE OBAMA E A MORTE DE LORD BYRON NA PRAIA

Imagem2Há dias em que não apetece falar da actualidade. Não por não haver notícias, pois está a passar-se muita coisa em Portugal e no mundo – Vítor Gaspar pede mais tempo aos credores internacionais para liquidar o crédito concedido, Barack Obama prestou juramento para o segundo mandato e Michelle Obama trajou um vestido vermelho na cerimónia de encerramento da tomada de posse, o pessoal do metropolitano de Lisboa está em greve e os utentes protestam, pois pagaram os passes e, etc. Cada uma destas coisas mereceria uma análise atenta – da simbologia da cor do vestido de madame Obama, à utilidade da greve como forma de luta.

Ao escriba que está hoje de serviço não apetece nenhuma destas notícias cinzentas. Desta gente, do casal Obama ao rei mago Gaspar, devoto de Milton Friedman (o servidor de Pinochet), palpita-nos que a História do futuro não dedicará espaço quando se referir a este período de estertor do capitalismo globalmente selvagem de que obamas e gaspares são modestos servidores. Gente que mantém um sistema que se alimenta da estupidez e da irracionalidade que o próprio sistema produz.

Mas noutros 22 de Janeiro nasceu gente que, como se diz sobretudo no futebol, «fez a diferença». Escolhemos apenas alguns dos muitos. Por exemplo, em 22 de Janeiro de 1561 nasceu em Londres o filósofo Francis Bacon, considerado o fundador da ciência tal como hoje é  entendida – estudou a metodologia e o empirismo como base do conhecimento. Novum Organum é a sua principal obra no campo da Filosofia, na qual disse: Só se pode vencer a natureza obedecendo-lhe. Foi eleito para a Câmara dos Comuns e acusado de corrupção. Obedeceu à natureza da política e não venceu. Acontece. Neste dia, mas  em 1788,  nasceu, também em Londres, George Gordon Byron, Lord Byron, um dos poetas mais importantes do Romantismo – escreveu Peregrinação de Child Harold e Don Juan que não concluiu -lutou pela independência da Grécia  e morreu de ferimentos recebidos em combate – tinha 36 anos. Rir, quanto a ele, era uma boa maneira de evitar os médicos. Gostou de Sintra (onde no temporal de anteontem foram derrubadas duas mil árvores!). Sempre em 22 de Janeiro, em 1849,  nasceu em Estocolmo,  August Strindberg, grande dramaturgo, ensaísta e ficcionista sueco, considerado um dos fundadores do teatro moderno. Nos compêndios, é integrado no Naturalismo e no Expressionismo. Na sua obra O Inferno disse que  a cada virtude corresponde um vício. O que explica o motivo por que a Humanidade tem tanta dificuldade em se libertar dos seus atávicos problemas. Em 1875, nasceu em Oldham County, no Kentucky, David Llewelyn Wark Griffith, geralmente conhecido por D. W. Griffith. Considerado o criador da moderna linguagem cinematográfica. Realizou cerca de 450 filmes, mas ficou famoso sobretudo por O Nascimento de uma Nação. Um filme polémico por não se ajustar aos mitos nacionais norte-americanos.  Em 189 em Ales, nasceu  Antonio Gramsci, um humanista italiano, um filósofo marxista que disse tanta coisa importante que se torna difícil escolher – por exemplo, afirmou que a divisão entre trabalho manual e trabalho intelectual, não faz sentido – todos os homens são intelectuais. O intelecto é o traço distintivo da espécie. Embora às vezes não pareça…

Segundo ONU, nascem cerca de 3 pessoas por segundo, 180 por minuto, 10 800 por hora… Enquanto escrevíamos este editorial (mais ou menos…) nasceram mais de dez mil pessoas. Será que, entre elas, alguma irá criar alguma coisa, na ciência, no teatro, no cinema… Todos são intelectuais, mas como a cada virtude corresponde um vício, se calhar o melhor é rir e evitar a taxa moderadora da consulta. Lord Byron morreu na praia e disse para um amigo – «Já é tempo de descansar».

1 Comment

  1. D mesmo para pensar tanta coincidncia —–s quem no acredita , que pode ficar indiferente a acontecimentos que vo marcando momentos histricos com profundos reflexos de uma dimenso humana ….inacreditvel …. Maria S

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