POESIA AO AMANHECER – 122 – por Manuel Simões

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PEDR’AMIGO DE SEVILHA

(sécs. XIII e XIV)

Quand’eu un dia fui en Compostela

en romaria, vi uma pastor

que, pois fui nado, nunca vi tan bela,

nen vi outra que falasse milhor;

e demandei-lhi logo seu amor

e fiz por ela esta pastorela.

Dixi-lh’eu logo: «Frermosa poncela,

queredes vós min por entendedor,

que vos darei boas toucas d’Estela

e boas cintas de Rocamador

e d’outras doas, a vosso sabor,

e fremoso pano pera gonela?»

E ela disse: «Eu non vos queria

por entendedor, ca nunca vos vi,

se non agora, nen vos filharia

doas, que sei que non son pera mi,

pero cuid’eu, se as filhass’assi,

que tal á no mundo a que pesaria.

E se veess’outra, que lhi diria,

se me dissesse “ca per vós perdi

meu amigu’e doas que me tragia”?

eu non sei ren que lhi dissess’ali;

se non foss’esto de que me temi,

non vos dig’ora que o non faria».

Dix’eu: «Pastor, sodes bem razõada,

e pero creede, se vos non pesar,

que non est oj’outra no mundo nada,

se vós non sodes, que eu saiba amar;

e por aquesto vos venho rogar

que eu seja voss’ome esta vegada».

E diss’ela come bem ensinada:

«por entendedor vos quero filhar

e pois for a romaria acabada,

aqui, d’u soo natural, do Sar,

cuido-m’eu, se me queredes levar,

ir-m’ei vosqu’e fico vossa pagada».

Jogral, localizado no Repartimento de Jerez de la Frontera em 1268 e em 1285 documentado como testemunha de um testamento em Sevilha. Frequentou a corte de Afonso X, onde participou no coro de maledicências sobre e contra Maria Perez Balteira e outras soldadeiras.

A cantiga é um bom exemplo de pastorela elaborada a partir do modelo occitânico e oitânico.

Glossário: “demandei-lhe”: pedi-lhe; “poncela”: donzela; “entendedor”: amante; “doas”: dons, presentes; “gonela”: saia, saiote; “filharia”: aceitaria; “ren”: coisa; “vegada”: vez; “d’u soo natural”: onde nasci; “vossa pagada”: de vós satisfeita.

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