Os Ciclos “Liquidacionistas”: A antiquada teoria dos ciclos reais da actividade económica e a Grande Depressão, por BRAD DELONG
Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Júlio Marques Mota fez também a introdução a este texto, em SOBRE O LIQUIDACIONISMO DE ONTEM NA AMÉRICA E DE HOJE NA EUROPA, publicado em A Viagem dos Argonautas, dias 22 e 23 , às 22 horas.
(CONTINUAÇÃO)
Parte III
Lionel Robbins (1934) vai ainda mais longe ao atribuir a extraordinária profundidade e durabilidade da grande depressão, à política monetária expansionista, afirmando que: ” no momento em que o boom rebentou … os bancos centrais do mundo… começaram a trabalhar para criar condições para a existência de dinheiro fácil…O processo de liquidação ficou parado ” E isso foi um erro, porque:
Em…num boom muitos maus negócios são assumidos .. mercadorias são produzidas…e em que é impossível vendê-las com lucros. Houve empréstimos que foram feitos e que é impossível recuperar…Quando o boom rebenta estes compromissos, estes maus negócios vêm à luz do dia …ninguém deseja a existência de … falências. Ninguém gosta da liquidação enquanto tal … [Mas] quando a extensão do mau-investimento e sobre- endividamento passou de um certo limite, as medidas que querem adiar a liquidação apenas podem tornar a situação bem piorar (Robbins, 1934, p. 62).
O diagnóstico de Robbins era de que a economia mundial dos anos 1930 precisava de mais e não de menos deflação: ” na presente depressão nós evitamos a purga violenta. Nós preferimos então a doença persistente.” E a rejeição de Hayek (1931) quanto à aplicação de políticas expansionistas é semelhante: a crença de “que uma crise geral pode ser evitada pela extensão do crédito” é uma falácia “popular”. Mais ainda , “as grandes expectativas ligadas às … obras públicas em tempos de depressão [são]… falaciosas,” porque os trabalhos públicos também “trazem com eles todos os maus efeitos que … surgem quando o dinheiro [a oferta de moeda ] aumenta .”
Se os mercados funcionassem sem atritos a redistribuição de mão-de-obra e das máquinas que seria deslocada das actividades socialmente improdutiva para as linhas de produção socialmente mais produtivas exigiria que não havia nem desemprego nem capacidade ociosa. As fricções nos mercados — os sindicatos, os custos de reafectação, da imperfeição na informação e assim por diante — significam que este processo de reafectação implica desemprego e a existência de capacidade produtiva não utilizada assim como a redução temporária da produção. Antes dos empresários expandirem as suas linhas de actividades devem estar conscientes da existência e disponibilidade de outros factores de produção, factores de produção que devem ser libertados das suas utilizações presentes ou passadas e passarem a estar algum tempo na situação de “inventário”, a saberem-se como disponíveis para a reafectação. Assim, Robbins e Schumpeter argumentam que a resposta adequada da política é a de não tentar aumentar a procura agregada para assim não parar o processo de liquidação e de reafectação dos factores : um processo que se poderia fazer naturalmente se não houvesse a intervenção e adiá-lo seria simplesmente aumentar os custos sociais . Em vez disso, a resposta adequada da política seria a de reduzir as fricções, ou seja, a de facilitar o processo de liquidação. .
Esta doutrina — a de que no longo prazo a grande depressão viria a mostrar-se ter sido uma “boa medicina” para a economia, e que os defensores das políticas de estímulo seriam os inimigos míopes do bem-estar público — levou a que outros gritassem bem alto e angustiadamente o seu desacordo. Foi o caso, por exemplo, do economista britânico Ralph Hawtrey que desprezava aqueles que, como Robbins, escreviam durante o pico mais alto da grande depressão que o maior perigo que a economia estava a enfrentar era o da inflação. Isto equivale, disse Hawtrey a estar a “gritar ‘Fogo! Fogo!’ durante o dilúvio da arca de Noé. ” Por seu lado Milton Friedman (1974) lembrou a Knight, Simons e a Viner que tais perigosos absurdos não eram ensinados em Chicago, mas ele compreendia porque é que em Harvard — onde tal absurdo era ensinado —os jovens e brilhantes estudantes se podiam revoltar e rejeitar os seus professores de macroeconomia e tornarem-se keynesianos. O keynesianismo pode ser falso mas não é nenhuma loucura e nunca é tão falso quanto o que os estudantes em pós-graduação aprendem com Schumpeter.
O próprio John Maynard Keynes (1931) tentou desacreditar o ponto de vista do “liquidacionismo” com a retórica do ridículo que levanta esta posição. Ele chamou-lhe uma “imbecilidade” por argumentar que o “desabafo maravilhoso da energia produtiva” durante o boom de 1924 — 29 tinha tornado a grande depressão como uma situação inevitável. E Keynes falou de Hayek, Robbins, Schumpeter e dos seus companheiros de viagem como:
… . almas austeras e puritanas [que] olhavam [a grande depressão]… como uma inevitável e desejável nemesis sobre tanta sobre-expansão como eles lhe chamam…Isto seria, sentem eles, uma vitória para a riqueza da injustiça, se tanta prosperidade não fosse contrabalançada posteriormente pela bancarrota à escala mundial. Nós precisamos, dizem-nos eles, que aquilo a que, de forma bem polida, chamam de uma «prolongada liquidação’ seja posta em prática, que a correcção seja feita. A liquidação, dizem-nos, ainda não está completa. Mas com o tempo vai estar completamente feita. E quando tiver decorrido o suficiente para a conclusão da liquidação, tudo estará bem connosco novamente… (Keynes, 1972; Vol. Xffl, pt. 1, p. 349)
Apesar da oposição, o ponto de vista “liquidacionista” era diariamente aplicado e praticamente em todo o mundo durante o período de 1929-33 e em grande parte do mundo durante o período de 1933-39. Até mesmo governos que tinham uma enormíssima liberdade de acção à escala internacional — como a França e os Estados Unidos com as suas enormes reservas de ouro e como a Grã-Bretanha após a sua saída do padrão-ouro — tinham tendência a não prosseguirem políticas monetárias e orçamentais expansionistas, alegando que tal comportamento expansionista teria como efeito a perda de “confiança” dos investidores e dificultaria pois o processo de liquidação, reafectação e a retoma do investimento privado (ver Teminde 1990; Eichengreen, 1991; Hall, Ed., 1989).
