O PATO ALGEMADO – XIX – por Sérgio Madeira

O pato tem muitos amigos. Um deles, o Professor Júlio Marques Mota, que é o responsável pelos textos de Economia, mandou-nos aImagem2 história de um acidente de que foi testemunha ocular. O pato ficou muito agradecido e vai pedir mais um favor ao Professor – que encabece a lista de assinaturas da petição que pede a introdução de duas leis – uma que proíba que nos restaurantes chineses (ou não – o pato não é chinófobo), seja proibida a inclusão do ‘Pato à Xangai’; a segunda tem a ver com o novo Acordo Ortográfico – que o vocábulo ‘patologia’ passe a ser ‘coelhologia’. Ora, diz o pato, faz lá sentido que um substantivo que significa «parte da medicina que estuda as doenças e as alterações do organismo» comece por «pato»? Disse-lhe um entendido que vem do grego ‘pathos’. O pato logo respondeu: «Os patos são animais saudáveis – já o mesmo não se pode dizer dos coelhos…»

Um acidente nos tempos que correm

 

Numa estrada sinuosa e escorregadia seguem  três carros em fila mas em boa velocidade Um  funcionário público,num Renault Clio, um deputado e advogado bem conhecido, no seu belo Jaguar, último modelo, e por fim, um membro do patronato português ou um homem como o doutorRelvias  que se diz muito respeitado pelos Goldman Sachs deste mundo  e dos seus Bórgia igualmente,  e que neste nosso exemplo guiava  um luxuoso Porsche Carrera.

O que deveria acontecer, aconteceu.  No contornar de uma curva, um tractor em sentido inverso   bloqueou a estrada e os três carros enfeixaram-se uns nos outros.  Felizmente  ninguém se amolgou, apenas os carros.

O nosso doutorRelvias, homem de muitas artimanhas que a honestidade vendeu  em saldo ao Diabo e porque aquela muito o incomodava,  olhou para os estragos doseu Porsche que iria já decaminho para a sucata e disse bem alto: merda para estes agricultores, para estes campónios. Era melhor estarem sem fazer nada. Desempregados, não aconteceria nada disto e teríamos depois uma grande herdade pública, uma outra herdade das Lezírias para aos grandes senhores deste país saldar, a ser privatizada pelo nosso Bórgia, homem especialista em impôr fracos rendimentos para os outros e remunerações chorudas para si e boa alimentação para os seus cavalos lá para os lados de AAAlter, com os três A dos mercados até aí colocados. E o doutor Relvas, doutor em disciplinas académicas por fazer, desabafou aos berros:  Lá se foi o rendimento de uns dias  do meu trabalho a organizar o esquema de privatizações da RTP para o Bórgia executar.  O advogado, por seu lado,  furioso berrou ; tenho que arranjar um político corrupto ou um antigo Presidente de um dado clube de futebol e arrancar-lhe um processo. Só assim pago este Jaguar com tantos extras de topo de gama. E, por fim, o nosso funcionário público, face às medidas de austeridade e a olhar para o seu Clio, esmagado pelas máquinas possantes, soluçava e dizia : 4 anos mais para poder comprar um outro igual.

O nosso « Relvias »  qualquer, certo de que quem trabalha honestamente nada deve ter de duradoiro,nem um digno diploma de curso superior deveriam apresentar, nem um simples abrigo seu para habitar, virou-se para o funcionário público e exclamou, agitadíssimo :

“Mas é preciso ser-se muito burro  para comprar um carro tão caro. Oh seu burro, Doutor é que você não é! ”.

e o nosso político e advogado, de pareceres públicos   bem recheado e que de  bolas de futebol andava  já bem distanciado, acrescentou:

“Mas é preciso ser-se muito ignorante para ganhar tão pouco !”.

È assim que somos vistos pela classe dominante, “burros” porque, sem dinheiro, comprámos coisas “caras”  que não devíamos  e que assim somos acusados de viver acima das nossas posses, ignorantes porque aceitamos trabalhar por quase nada, e calamos.

O ESTRANHO CASO DO PASTOR ALEMÃO –  João e Franz vêm para Portugal- por Sérgio Madeira

Depois do seu aparte sobre Hitler, o inspector Pais aninhou-se no seu cadeirão e prosseguiu  a sesta. O agente Esteves teclava com eficiente rapidez as declarações de Paralelo de Sousa.

E João Boagren continuou o seu monótono relato enquanto Filipe tomava um ou outro apontamento, Marília limava as unhas, Esteves, incansável, passava a escrito o depoimento e Pais emitia uns silvos agudos entre roncos. João depois de explicar como os nazis tinham anexado a Áustria ao território do III Reich, voltou atrás, a 1918, quando o império austr-húngaro,  derrotado na Primeira Grande Guerra, assinou o armistício, que exigia sua dissolução. O Imperador renunciou ao governo e partiu para o exílio e a Áustria tornou-se uma República, terminando assim o multissecular domínio da dinastia dos Habsburgo. E abriu um parêntesis para lembrar que Portugal fizera parte do Império dos Áustria. Na ressaca da Segunda Guerra, a Áustria foi dividida em três zonas de ocupação americana, britânica, francesa e russa,…

O Pais acordou e voltou a perguntar a Filipe:

– Em que ano estamos?

– 1945.

– Bem. Vamos fazer uma pausa.

Levantaram-se. O inspector rosnou para o escritor:

– O doutor Triângulo da Silva, fica aqui com o agente Esteves. Pode continuar a contar a história da Austrália… – virou-se para o Esteves – você não perca tempo a escrever essas tretas. Se eu quisesse, e não quero, saber a história do império ostrozíngaro, procurava na «Portuguesa-Brasileira» – e apontou as dezenas de volumes encadernados que ornamentavam a estante – Ó Esteves, tenha paciência, eu mando-lhe cá um café. Quando o detido quiser contar alguma coisa de jeito, chame-nos.

E foi com Filipe e Marília até a uma sala. Pediu cafés a um funcionário e virou-se para Filipe e Marília:

– Há uma má notícia… A Louca do Caldas evadiu-se da prisão.

A seguir – a ameaça do travesti.

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