Façamos uma ponte entre Lisboa, por exemplo a Maternidade Alfredo da Costa e Praga, República Checa. Em Lisboa, verificaram-se no ano passado mais de mil pedidos de ajuda por parte de mães sem recursos, tendo em vista poderem alimentar seus filhos recém-nascidos. E confessam dar leite de vaca ou fazer o leite mais aguado. O que origina atrasos no desenvolvimento e gastroenterites.
E falta o dinheiro também para medicamentos, vacinas e produtos de higiene. Acresce a isto o facto de as mães faltarem a consultas por não terem dinheiro para os transportes, o que as coloca em risco, assim como aos bebés. A pediatra Cristina Matos afirma “Estamos a recuar 50 anos”.
Há associações a ajudar como a Associação de Ajuda ao Recém-Nascido (Banco do Bebé). Este ano, o Banco do Bebé recebeu 3.430 pedidos de ajuda e foram apoiadas 971 crianças e 62 no domicílio. Dos cerca de 4000 partos anuais na MAC, perto de 10% resultam em crianças sinalizadas por estarem em risco de serem negligenciadas.
Na República Checa, na parede exterior do edifício da clínica GynCentrum, no leste de Praga, está colocada uma “caixa” que recolhe bebés indesejados. No interior desse dispositivo encontram-se folhetos em checo, russo e inglês com números de telefone que oferecem ajuda às mães que mudem de ideias. Mas esta “caixa” não é a única. Existem mais 50 dispositivos no país e contabilizam-se em 75 os bebés que já foram recebidos.
Informações recolhidas indicam que estas “Rodas” voltaram a ser comuns na Europa (Alemanha, Áustria, Suíça, Polónia, República Checa e Letónia) e não só (num total de 200) e nelas já foram depositadas mais de 400 crianças.
O comité da ONU que zela sobre o cumprimento dos Direitos da Criança mostra-se alarmado com o aumento destas “caixas” colocadas geralmente no exterior dos hospitais. Isto viola uma das ideias básicas da Convenção sobre os Direitos da Criança que diz que estas têm direito a conhecer os seus pais.
Por cá, a RODA foi criada em 1768 pelo o Marquês de Pombal com o objectivo de diminuir os infanticídios, ficando adstritas a hospitais ou albergarias de cada cidade (em Lisboa o Hospital de Todos os Santos) e mais tarde a Santa Casa de Misericórdia de Lisboa, por mão do Conde de Rio Maior, extinguiu este “Serviço” em 1870, atribuindo pequenos subsídios a mães “indigentes”. E muitas das crianças passaram de “expostas” a “encobertas” – aquelas cujas mães as não queriam registar. E as que as registavam, era sem nome de pai, o que as autoridades consideravam melhor do que a situação anterior. Por essa altura, essas mães podiam ficar com seus filhos até um ano, a expensas da SCML, como que a servir de “amas de leite” dos próprios filhos.
Vamos ver que soluções encontram as nossas mães que se encontram em situações desesperadas, a fim de poderem dar o essencial a seus filhos. Antes que intervenha uma sinalização nas Comissões de Protecção e uma retirada forçada – por vezes desejada – das crianças. Nem sempre abandonar é sinónimo de falta de amor.