O jornalista Adelino Gomes defendeu uma tese de doutoramento em Sociologia da Comunicação, aprovada por unanimidade com distinção e louvor, no ISCTE (Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa). A tese do ex-director adjunto do PÚBLICO (tendo sido um dos seus fundadores em 1990, e director adjunto do jornal entre 1998 e 2000 e provedor do ouvinte da RDP (2008-2010) foi sobre o telejornal e o zapping na era da Internet. Da sua carreira profissional destaca-se a cobertura do dia 25 de Abril de 1974 (Rádio Renascença); do 11 de Março de 1975 e do início da invasão de Timor pela Indonésia (1975, RTP); e de episódios das guerras do Afeganistão e do Golfo (1990/1, 2001 e 2003, “Público”), entre numerosas outras reportagens. Como investigador, participou no estudo “Ser Jornalista em Portugal. Perfis Sociológicos”, editado em 2011, cuja equipa desenvolve investigação sobre “As Novas Gerações de Jornalistas” e participa no “Projecto Jornalismo e Sociedade”, que prepara uma Carta de Princípios para o Jornalismo na era da Internet.
Considera ele que a luta pelas audiências passou a dominar os critérios de noticiabilidade, ficando a par, ou antes, de outros critérios que considera essenciais, como a importância ou a actualidade da notícia. Chegou a esta conclusão a partir do estudo do comportamento de editores e telespectadores nos jornais televisivos das 20 horas das estações da RTP1, SIC e TVI, nos anos entre 2006 e 2010. Considera o autor que existe uma “crise profunda” no jornalismo, devido não só aos novos fenómenos da Internet como à existência das redes sociais.
“As notícias, os vídeos e fotografias, as opiniões colocadas por utilizadores nas redes sociais, revelam-se factor importante no progressivo declínio do mundo da informação tal como o conhecemos, e a minha geração o viveu”.
“As audiências não se contentam agora, apenas, em aparecerem na vox populi dos telejornais ou nas caras da gente e nas cartas de leitores dos jornais”.
Para Adelino Gomes existe um paradoxo no facto de os cidadãos não terem interesse em pagar uma televisão igual às outras. O serviço público, que não é obrigatório ser feito pela RTP, é algo que deve procurar a excelência e ter o efeito de influenciar os restantes meios. Mas “seria preocupante se daqui a cinco anos a televisão estivesse apenas entregue a privados”. Daí defender o serviço público de televisão como “bem público”.
A tese analisa como os espectadores se relacionam com jornais televisivos e como os jornalistas pensam os alinhamentos dos telejornais. Vê o telecomando como uma metáfora do poder do espectador e “das promessas, ameaças e desafios que a idade digital coloca ao jornalismo, em particular o televisivo.
Na sua tese utilizou o método de investigação utilizado, em sociologia ”observação participante” onde o observador não pode observar-se a si próprio nem interferir no trabalho dos observados.
Em entrevista à Visaõ de 29 de Novembro, dizia: “O grande desafio do jornalismo de hoje é a de saber como informamos quem já sabe tanto como nós… e a solução é dar-lhe s hierarquia, contexto, credibilidade”.
Podemos imaginar como se criam relações de cumplicidade e de “troca” entre polícias e jornalistas úteis a ambas as partes, as quais em determinados momentos podem descambar e tornar-se incontroláveis.
Não pretendo fazer juízos apriorísticos sobre o que se passou na RTP com as imagens dos incidentes frente ao Parlamento. Mas este relato ajuda a perceber uma realidade que organismos policiais e jornalistas conhecem muito bem.
Se é certo que os jornalistas não são auxiliares das polícias, do mesmo modo as polícias não deviam ser bancos de imagens dos jornalistas”.
Na entrevista já citada, Adelino Gomes acaba a dizer: “Caros jornalistas das três grandes televisões portuguesas, vocês têm uma responsabilidade enorme e têm de ser mais exigentes”.