Um Café na Internet
– Coitados daqueles homens que trabalhavam em fábricas com tecnologia atrasada, mesmo para a sua época. Isto, para não falarmos já daqueles outros que nada possuíam para além dos seus braços, para além da sua própria força de trabalho e que não conseguiam encontrar trabalho.
– Eu sei (disse o Chico). Eu também estudei isso. Eram os desempregados. Era assim que lhes chamavam, não é?
– É! O exército industrial de reserva para impedir que subisse o preço da força de trabalho…
O Chico limpou a fronte com a costa da mão. Respirou fundo e perguntou-me:
– Mas se havia abundância generalizada, se havia falta de produtos, falta de produção, como se explica a existência dos tais desempregados?
– Chico: uma vezes havias carências, outras havia excedentes inconsumíveis. Era a total desprogramação porque, quem mandava produzir por ser dono dos meios de produção, não o fazia para atender a necessidades coletivas, mas para ganhar o máximo de dinheiro com a produção. Às vezes acertava no que devia produzir e ganhava. Outras vezes não acertava e perdia. Quando ganhava, nada ou pouco repartia. Quando perdia, perdiam todos os trabalhadores para ele e, entre todos, era ele o que menos perdia. Era um jogo de desperdício no meio da carência social e em que se jogavam, a frio, vidas humanas.
– Era horrível (murmurou o Chico).
Bebeu o último gole de vinho, deu-me um abraço e foi-se embora. Triste.
Sou muito amigo do Chico, mas ele não tem estômago para estas conversas, é um temperamento por demais sensível. Nunca mais lhe falo em Economia. Esta ciência morta, tão morte que ainda cheira a cadáveres.
In 25 CONTOS DE ECONOMIA

