DESATAR ATÉ DAR NÓS
(Um texto muito antigo)
“Texto a duas mãos” por Marcos Cruz e Adão Cruz
Desenho de Manel Cruz
As palavras são filhas do silêncio, rompem-no como um novo ser rompe a sua mãe, não sem dor, não sem perda. Cada palavra é um desafio novo, um início, um indício de fim, uma ilusão de identidade, um cão de casota que corre até esticar a corda. O silêncio testemunha essa loucura. É palavra informe, irrasurável. É a razão da fé, a mãe sem truque, o nada na manga de tudo.
A poesia não está em cima da mesa, a poesia está debaixo da mesa, ao lado da mesa, em frente à mesa, acessível ao verdadeiro poeta, que é aquele que tem a sorte de a ver e com ela conviver, sem se atrever a traduzi-la em grosseiras palavras escritas em bases para copos e em guardanapos. O que pretendem pôr em cima da mesa poderá ser um arremedo de nada, o cadáver da poesia estrangulada pelas palavras.
A poesia não anda de eléctrico, embora envolva tudo o que está à volta do eléctrico e o próprio eléctrico. Quem anda de eléctrico, pretensamente transportando a poesia, poderão ser os matadores da poesia, lançando ao vento palavras ocas e vazias misturadas com o gemido dos carris.
A poesia está em tudo, até na rua, e quando tentam pescá-la nos anzóis das palavras, mais não fazem do que atirá-la para as ruas da amargura.
O verdadeiro poeta, o que sente a poesia, o que vive a poesia, o que se delicia com todas as manifestações de poesia que nos rodeiam, não escreve poesia e tem horror a quem se atreve a meter o infinito da poesia numa caixa se palavras.
Isto é assim, apesar de não conseguirmos conter-nos, e dentro da nossa mediocridade nos convencermos, diariamente, de que somos poetas!
Mas admitamos o nosso sentimento poético e busquemos as melhores palavras de saudação à poesia, consagradas como estruturas, composições e esquemas de palavras a que chamamos poemas. Não nos esqueçamos, porém, que a par da maravilha da palavra se perfila a nossa incapacidade. Incapacidade da qual emergem, por vezes, palavras bonitas que mais não são do que minúsculas pepitas de poesia nas mãos de frágeis garimpeiros da beleza.
Felizes os muito poucos que as encontram, e que sabem resguardá-las não da fraqueza, mas da estupidez.



