CHAMARAM-LHE PORTUGAL – 3 – por José Brandão

Imagem1D. Henrique e D. Teresa

As memórias do tempo retratam-nos D. Teresa como uma mulher sagaz, viva e bela. A astúcia combinava-se no seu espírito com um amor que a levava a comprometer-se, como diríamos na nossa linguagem moderna. Uma vez, na catedral de Viseu, apresentou-se com o amante, no meio da igreja apinhada de povo, e em frente do prelado que pregava. A autoridade dos bispos corria então parelhas com a rudeza das suas liberdades; e o de Viseu não duvidou dizer à rainha, em voz alta, do púlpito ou dos degraus do altar, que abandonasse o amante ou se casasse: era um escândalo aquela união, uma vergonha proceder de tal modo. A condessa, vermelha de cólera e confusão, fugiu rapidamente da igreja seguida pelo amante.

Por que não sucederia ao escândalo a vingança, para não quebrar a constante aliança da impudicícia e da crueldade, dominantes na Idade Média? Porque naturalmente as invectivas do bispo traduziam a força do partido dos invejosos e rebeldes, que já faziam do moço filho de D. Henrique um pendão de revolta contra a viúva apaixonada. Nem por tão pouco se afligiria a consciência do bispo, pois o clero demasiado ouvia também os conselhos da carne, e os amores sacrílegos eram tão frequentes como os amores livres ou adulterinos.

A princesa não era menos sagaz do que voluptuosa, e adiava para mais tarde a vingança. Beijos lascivos, perfídias indignas e barbaridades ferinas, eis os elementos que constituíam a mulher da Meia Idade. Os dotes femininos eram naturalmente pervertidos por um ambiente de brutalidade anárquica nos sentimentos e nas acções: e, quando a mulher dispunha da autoridade e da força, ou, como a Fredegonda dos Merovíngios, cevava em sangue a sua fera natureza, ou satisfazia numa impudicícia desesperada as necessidades sensuais do seu temperamento. Nem a crueldade, nem a sensualidade eram menores nos homens: mas a natureza que neles dá o predomínio aos pensamentos, como o dá aos sentimentos nas mulheres, fazia com que a rudeza dos primeiros andasse subalternizada à ambição e aos cálculos políticos, ou à bravura e às façanhas guerreiras.

Não se imagine, porém, a mulher da Idade Média um ser apenas formado de crueldade e amor; menos se suponha D. Teresa uma semelhante criatura. A condessa, infanta ou rainha de Portugal — porque de todos estes títulos usou — era também sagaz e astuta, qualidades que o filho veio a herdar com o sangue. Não tinha o ânimo varonil de uma amazona, mas tinha a perspicácia e o juízo próprios dos príncipes desses tempos. Sabia moderar a cólera e engolir afrontas como a de Viseu, quando não podia vingar-se delas. O amor traduzia apenas uma exigência dos sentidos, deixando livre e independente a acção da inteligência. No meio das agitadas circunstâncias do seu breve governo, não deixou abandonadas as conveniências próprias, como dona e senhora do Estado português.

Muitas vezes se lêem descrições de uma vida sentimental e heróica, em que as mulheres andam loucas de paixões poéticas, e os homens, tipos de nobreza e audácia, são vítimas dos conflitos do amor e da honra. Não há nada mais diferente da verdadeira, do que essa Idade Média das óperas. A carnalidade desenfreada, o cinismo e a perfídia, uma frieza sempre calculadora, uma ambição feroz, uma avareza sórdida, uma corrupção de todas as fontes da vida moral, eis aí o que de facto constitui a vida aristocrática da Idade Média. Onde está a causa de tamanhas desordens? Está na coexistência e no conjunto de condições bárbaras e de tradições cultas. De onde provém a ilusão com que muitos supuseram belezas espontâneas nos caracteres, e nobres dedicações nos actos, criando com a fantasia um falso quadro de encantos? Da ingenuidade dos tipos bárbaros.

Há, com efeito, na natureza espontânea o quer que é de sedutoramente belo, que nos chama para uma região de deleites inconscientes: assim todas as descrições das sociedades primitivas produzem em nós uma impressão vivificante, e desde logo somos levados a engrandecer e nobilitar os homens ainda não corrompidos pelas aberrações da civilização. É mister porém observar que tais homens primitivos não são os do XI século; que na Idade Média existem e vivem, principalmente por via da Igreja, todas as tradições da cultura antiga; e que a conjunção da barbárie e do requinte lança nos caracteres uma semente de perversão, pronta a rebentar em actos monstruosos, tão corrompidos no princípio, como bárbaros na forma. É popular o sentimento de tédio e nojo para com o império de Bizâncio; pois as causas originárias dessa repugnância são também comuns às sociedades neolatinas ou neogodas da Espanha. Só variam as proporções: os elementos combinados são os mesmos. No Oriente a cultura é maior, os costumes mais requintados; aqui é maior a rudeza, e a feição bárbara predomina. Por isso os vícios procuravam, além, esconder-se sob o manto das convenções; e aqui se expandem ingénua e francamente, à luz de uma ignorância quase primitiva.

Assim que D. Urraca morreu, Afonso VII, depois de conquistadas ao vizinho aragonês as cidades de Castela, olhou para oeste, a fim de reconstituir de novo a monarquia leonesa, fazendo regressar ao seu domínio os territórios de Campos e da Galiza. A invasão e a guerra duraram apenas uma campanha; e a amorosa Teresa curvou-se ao império das condições, reconheceu o facto da conquista, e confessou com humildade a vassalagem ao sobrinho leonês.

Portugal retraía-se aos primeiros limites — do Minho ao Mondego — do condado criado por Afonso VI; e os cálculos do conde borguinhão frustravam-se, depois de menos de vinte anos de indeciso domínio.

Esse infortúnio da regina de Portugal acabou de decidir os invejosos do conde galego, seu amante. As tendências de sublevação, até aí sopitadas ou mal definidas, tomaram corpo e unidade; e a revolta declarada dos barões achou nos desastres de 1127 motivo suficiente para se erguer em campo aberto.

Capitaneava a revolta o infante português. Não é esta a única ocasião em que vemos erguerem-se em armas os filhos contra os pais, os irmãos contra os irmãos, como prova de que, se os sentimentos andavam pervertidos pelos instintos brutais, os vínculos da família eram apenas laços ténues que se rompiam ao impulso de qualquer exigência da cólera ou da ambição. Nem sentimentos, nem instituições fixas: uma anarquia total no indivíduo e na sociedade, uma desordem acabada na moral e no direito eis aí as bases históricas da Idade Média, cujo deus é a força.

D. Afonso Henriques, o primeiro rei português, ou capitaneava ou era o pendão apenas — hipótese que a sua curta idade justifica — da revolta que tinha por chefes o arcebispo de Braga, D. Paio, Sueiro Mendes o grosso, Ermígio Moniz, Sancho Nunes, genro da regina Teresa, e Garcia Soares. Aos pactos de Braga sucedeu o encontro de Guimarães. A rainha, abraçada ao seu amante, vinha seguida por barões fiéis de aquém, e pelos barões de além Minho, que se tinham submetido a Afonso VII. A batalha decidiu-se pelo filho, e a rainha fugiu a esconder no condado do amante o desespero da derrota. De protectora, os acasos da guerra faziam-na agora protegida; e a história deve ainda ao conde galego a justiça de mencionar que a não abandonou, quando a viu despojada do poder e do título. Os prazeres da paixão acaso suavizariam à formosa filha do grande Afonso a infelicidade das armas, e porventura também o desespero maternal, se é que os vínculos de sangue tinham para a mãe um merecimento superior ao que tinham para o filho.

No seio da barbárie corrupta em que se revolvia, a Idade Média tinha, porém, não só o instinto dos deveres, inato nos homens, como o medo dos castigos divinos pregados por uma religião que até para o próprio clero baixara às condições de um quase fetichismo. As lendas contam que, vencedor, o filho encarcerara a mãe, e põem na boca de D. Teresa este anátema terrível: «Afonso Henriques, meu filho, prendeste-me e meteste-me em ferros, e exerdaste-me da minha terra que me deixou meu padre, e quitaste-me de meu marido: rogo a Deus sejas assim como eu sou, e porque meteste ferros nos meus pés, quebradas sejam as tuas pernas com ferros. Mande Deus que isto assim seja!» E o anátema cumpriu-se em Badajoz, anos depois, porque Deus vingador não perdoava os crimes frequentes dos filhos contra os pais. Assim pensavam esses homens simples.

À batalha de Guimarães ligava-se, porém, um alcance maior do que o de uma simples questão de família: era a rotura da solidariedade entre as duas metades da Galiza, e a vitória da portuguesa sobre a leonesa. Era o primeiro sintoma de uma direcção nova, que se ia imprimindo na vida histórica nacional. Essa rotura da solidariedade, e a força da monarquia leonesa sob Afonso VII, serão dois motivos concorrentes para impedir que as tentativas do primeiro rei português tenham sobre o norte resultados eficazes.

Logo depois de Guimarães, Afonso Henriques, preferindo o papel de invasor ao de atacado, procura reivindicar as fronteiras perdidas em 1127 por D. Teresa. Duas vezes invade a Galiza transminhota: duas vezes é forçado a recuar, em 1130 e em 1132; mas depois de Guimarães, depois da lide de Valdevez, em que os portugueses venceram, já a independência de facto estava conquistada. Selados os preliminares de paz, Afonso Henriques ocupou-se em acalmar as terras do seu senhorio a fim de que nunca «lhe acontecesse outro tal desavisamento», e conquistou «todallas fortalezas de portugal assy como se fossem de mouros».

A seguir –Batalha de S. Mamede

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