Batalha de Ourique
A razão política da independência, evidente hoje para a crítica, não o estava decerto para o rei, a quem as conquistas apenas satisfaziam a ambição, e o título a vaidade. Via-se mais poderoso e grande; mas não tinha decerto a consciência de que isso importasse o primeiro passo no caminho da formação de uma nova nação peninsular. Ferido, tirara do sarraceno uma desforra completa; mas faltava ainda apagar a nódoa de Tui, rasgar esses tratados que ligavam, como vassala, à coroa soberana de Leão, a sua coroa ainda mal assente, o seu reino precário ainda. Uma volta da fortuna podia outra vez precipitá-lo, das eminências onde as suas ambições o erguiam, na humilde condição de conde de Portugal.
Em Valdevez Afonso VII assinara os preliminares de uma paz que os acontecimentos dos anos posteriores não tinham consentido se traduzisse num tratado definitivo; e agora não era já lícito ao leonês exigir, nem ao português aceitar, as duas condições de uma perfeita vassalagem.
O Papado exercia então na Europa uma espécie de suserania espiritual sobre os príncipes cristãos; porque no meio desses guerreiros, bravios e tímidos como selvagens, o sacerdote tinha verdadeiramente o poder de condenar em nome de Deus. Uma excomunhão valia muitas vezes mais do que um exército. Assim, o cardeal Guido, legado do Papa, é quem em 1143 dita em Zamora, onde Afonso Henriques foi ver-se com o imperador (desse título usava Afonso VII) as condições do tratado de paz. O português desiste aí das suas pretensões às fronteiras cedidas por D. Urraca, e Afonso VII por seu turno reconhece a independência do novo reino e o título do seu soberano. Esta soberania e independência não eram, porém, absolutas. Na hierarquia feudal havia graus diversos de suserania e vassalagem correspondente; e os tratados de Zamora alteravam a natureza, mas não quebravam de todo os laços que prendiam Portugal ao corpo da grande monarquia peninsular. Afonso Henriques ficava sendo um rei, mas o seu reino nem por isso deixava de fazer parte do império da Espanha; nem ele próprio, por tal forma, deixava de ficar numa situação subalterna perante o imperador. Era uma vassalagem política, substituindo a pura vassalagem pessoal do regime anterior. O direito feudal não se oblitera, porém, ainda ao ponto de prescindir de uma obrigação pessoal; e por isso o soberano português continuava a ser vassalo do vizinho, não como soberano, mas como senhor de Astorga, para esse efeito doada a Afonso Henriques.
Estas subtilezas propriamente bizantinas, inspiradas pela política eclesiástica que imprimia o seu cunho ao feudalismo, formavam um sistema de enganos recíprocos, de mentiras mais ou menos sinceras, com que se revestiam os actos brutais da força, e os actos pérfidos da astúcia.
Afonso Henriques, regendi imperii jam bene sciolus, mestre acabado na arte de enganar e na arte de combater, tinha já formado o seu plano, e por isso subscrevia sem reserva a todas as exigências do tratado. A independência e a soberania que ele lhe dava eram apenas pessoais e vitalícias, e nas ideias aristocráticas a hereditariedade era inseparável do domínio. O seu reino era pois um falso reino, desde que, não havendo no direito político dos godos outra base para a sucessão, além da electiva, ou Portugal seria por sua morte absorvido no império espanhol, em via de cristalização, ou o filho de Afonso Henriques teria de recomeçar a debater com as armas a questão vital da independência. Os termos do tratado decerto o não iludiam, garantindo-lhe apenas pessoalmente a independência e a soberania; e se da parte do leonês houvera o intento pérfido de o enganar, ele preparava uma lição ao mestre, e tão eloquente como fora cruel a lição que dera ao sarraceno.
Entre os dois litigantes o italiano perspicaz foi provavelmente o conselheiro de ambos. Guido, como o insecto artificioso e cheio de habilidades, teceu a trama. Ao leonês mostraria o modo de iludir o adversário: conceder-lhe tudo, deixando esse ténue cordão umbilical de Astorga, para no momento oportuno fazer reverter os territórios portugueses ao corpo da monarquia soberana. Voltando-se depois com um sorriso, diria baixo ao português, que o tratado não valia nada de princípio a fim, se ele quisesse seguir-lhe os conselhos. Todas as habilidades do imperador provariam inúteis: tinha um meio seguro! — Afonso Henriques devia ouvir com atenção tenaz as confidências do cardeal. Havia um direito superior ao direito feudal: era o canónico. Havia um soberano, rei dos reis: o Papa. Por que não seria Afonso Henriques vassalo do Papa? Colocasse os seus reinos sob a suserania papal, e nenhum Imperador das Espanhas ousaria tocar-lhes. Só assim a sua coroa ficaria segura na cabeça, dele e de seus descendentes. A suserania do Papa era de resto infinitamente menos incómoda. Reduzia-se a uma pequena soma de dinheiro. Um nada! Quatro onças de ouro por ano, nem mereciam a pena contar-se diante da independência de facto. Se o rei aceitasse, ele próprio em pessoa redigiria a carta, ele que redigira o tratado; ele próprio seria portador da missiva ao Papa. Se viera a Espanha fazer a paz, iria de Espanha com o coração contente, por ter conquistado mais um vassalo para a Igreja. — E mais um censo anual para o tesouro romano, acrescentaria mentalmente!
Afonso Henriques desde logo aceitou. Pouco lhe importava o censo, porque não tinha sequer a certeza de ser fiel ao pagamento. O cardeal iludia-se, se supunha que o rei tremia das excomunhões: um rei que não havia de hesitar em rasgar as bulas pontifícias, e pôr e depor bispos, como bem lhe aprouvesse!
O cardeal partiu levando a carta do rei; e enquanto este ia formando a tenção de suprimir o pagamento do censo, logo que lhe conviesse fazê-lo, o cardeal foi pela viagem ruminando o modo de colher as onças de ouro, sem se inimizar com o leonês. Só anos depois Afonso VII veio a saber como o vizinho e já quase émulo iludira as disposições do tratado de Zamora. Insistindo com o Papa para que recusasse a vassalagem, não o consegue; mas tão-pouco Afonso Henriques consegue aquilo por que pagara o preço de quatro onças de ouro anuais; pois nas piedosas cartas que lhe escreve, como suserano a vassalo, o Papa cuidadosamente evita chamar-lhe rei e reino a Portugal.
Em vão Afonso Henriques insta e exige. Por fim, já nos derradeiros anos do seu reinado, e à custa do censo anual, Alexandre III decide-se, e sanciona-lhe o título, garantindo-lhe a hereditariedade, sob condição de preito e confirmação outorgada aos seus sucessores.
Portugal, que já a esse tempo tinha uma razão de ser territorial independente da Galiza, achava agora um fundamento jurídico de independência de Leão. A suserania do Papa colocava o novo reino ao abrigo das pretensões da monarquia leonesa; e se Afonso Henriques não saía da condição subalterna de vassalo, porque apenas mudara de protector ou suserano, o facto é que na mudança ganhava uma liberdade real, esperando o que de facto veio a conseguir: que a vassalagem se tornasse nominal apenas.
Ainda no tempo do primeiro rei português de novo se ateia a guerra com Leão; mas também um exame superficial dos monumentos históricos para ver que o carácter e as condições dessa nova campanha são totalmente outros. Não é um vassalo rebelde pugnando pela independência: é o choque de duas monarquias que reciprocamente se reconhecem como tais. A série de guerras entre os diversos estados da Península — caminho por onde ela chegou a determinar as condições definitivas das suas constituições políticas — tem na campanha de 1160 um episódio. Afonso Henriques, já rei de facto e de direito, já senhor da linha estratégica de Santarém, e possuindo além disso, como vedetas avançadas para o sul, várias praças do Alentejo, dispunha de forças suficientes para pesar com a sua espada no debate das questões políticas dos Estados peninsulares. Desde que se decidisse a fazê-lo, é natural que a velha ambição das fronteiras dilatadas de norte e nordeste fosse a causa eficiente dos seus actos.
Fernando II de Leão casara com uma filha do rei português, mas nem ao genro nem à filha Afonso Henriques cedia os seus ambiciosos propósitos. Raras vezes a política tomou em consideração os vínculos de família, O rei de Leão usurpara a coroa de Castela, e contava que a esposa lhe trouxesse a aliança do português; porventura teria havido inteligências positivas entre os dois monarcas. Quando com uma livre audácia se rompiam as pazes mais solenes, que admira que se mentisse a convénios ou ajustes privados? Afonso Henriques era, como se sabe, mestre na arte de reinar. O facto é que, logo um ano depois do casamento da infanta, aproveita o momento em que o rei Fernando se achava a braços com a insurreição dos castelhanos para mandar seu filho e herdeiro, Sancho, à batalha de Arganal, onde foi batido (1165). Invadindo em pessoa a Galiza, o rei apossara-se facilmente de Tui e do distrito de Toronho até o Lerez, seguindo daí para leste (1166). Essa nova ocupação portuguesa da Galiza dura até o desastre de Badajoz (1169).
Correndo então ao sul, Afonso Henriques decide-se a consolidar as suas possessões do Alentejo, conquistando Badajoz aos sarracenos. Este acto, porém, era simultaneamente um episódio da guerra com Leão, porque o vali de Badajoz se colocara sob a suserania de Fernando II, e porque a praça ficava para fora dos limites de leste, marcados em Zamora às futuras conquistas do rei de Portugal sobre os muçulmanos.
A cidade caiu sob o ataque do português. Colhidos por surpresa, os defensores encerraram-se na alcáçova, resistindo. Pôs-se o cerco, mas entretanto o rei de Leão, avisado, correu a defender o que era seu; Afonso Henriques foi colhido entre dois inimigos. De sitiante viu-se cercado.
Afinal o temerário capitão caía em poder do adversário, afinal o caçador colhia-o fora do refoio. Debate-se, estrebucha e, ainda vencido, luta desesperado; mas está pesado, velho e gasto. Faltam-lhe as forças para arremeter como dantes, com a cabeça baixa e as presas activas, contra a matilha dos lebreus. Tropeça e cai. É colhido. Cumpria-se o anátema: Deus castigava o filho que prendera sua mãe! Prisioneiro, curva-se submisso, recolhendo a cólera e os dentes açulados perante o seu nobre vencedor. Tal nome convém de facto a Fernando II, cuja magnanimidade perdoou as perfídias e ataques do vizinho e sogro. «Restitua o que roubou, guarde o que é seu, e vá em paz!» Cabisbaixo, com o joelho ferido, a coxear, Afonso Henriques parte dali a Santarém, concluir o que lhe resta de vida. Não tem cóleras nem fundas mágoas pela afronta que sofreu: só lamenta a virente Galiza, perdida para todo o sempre.
Como o avarento, em cuja alma e paixão exclusiva absorveu todos os sentimentos e paixões humanas, assim na alma de Afonso Henriques a monotonia da conquista, doença vulgar nos príncipes da Idade Média, atrofiara o desenvolvimento de tudo o mais. Mas, se entre os consócios de uma pátria irmã, se entre os herdeiros de uma história comum, há o amor por essa pátria e a veneração pelos antepassados, nenhum merece na alma dos portugueses respeito maior do que o primeiro de todos aqueles a cujo braço esforçado se deve a obra da constituição política da nação. Neste sentido as manias chegam a ser sublimes. Um salteador é, não raro, um verdadeiro herói; a perfídia é uma virtude, a crueldade é um título de glória, porque o espírito colectivo substitui o critério moral e abstracto pelo critério histórico, o qual tem como base a consagração dos factos consumados.
A separação de Portugal foi um facto consumado, graças ao valente, medíocre, tenaz, brutal e pérfido carácter de Afonso Henriques.
A seguir – A CONQUISTA DE AL-GHARB


Ha ha ha! Pois claro, galegos ao fim e desde o começo. A independência não significa que deixassem de ser galegos, como alguns parecem fazer crer. Galegos eram Agonso Henriques e todos e todas as suas filhas e netas. Bem como o 90% da nobreza autoproclamada portuguesa. Portugal é o estado galego independente. Saúde.