GIRO DO HORIZONTE – 3 de Fevereiro – por Pedro de Pezarat Correia

Com o10550902_MvCyL[1] GDH de hoje abro uma excepção, para recordar uma efeméride à qual confiro um sentido que, para além do conteúdo histórico, patriótico e democrático, tem uma componente pessoal e afectiva, que assumo.

No dia em que escrevo, 3 de Fevereiro, completam-se 86 anos sobre o levantamento militar e cívico do Porto que, além da primeira, foi a mais importante revolta contra a ditadura imposta na sequência do 28 de Maio, o primeiro dos actos a que tenho chamado precursores do 25 de Abril. Freire Antunes chamou-lhe “o primeiro 25 de Abril falhado”. Quando em 1999 publiquei o meu livro Questionar Abril, abri-o com um “Pórtico-Dedicatória” que a seguir transcrevo na íntegra:

«A meu pai, António Joaquim Correia, “capitão de Abril” avant la lettre, que a morte impediu de ver o 25 de Abril.

 

Em 3 de Fevereiro de 1927, rebentava no Porto a primeira revolta militar contra a ditadura implantada em 28 de Maio de 1926. Nos objectivos dos revoltosos estava a reposição da legalidade democrática e constitucional anterior. As unidades militares da guarnição dividiram-se no apoio ao movimento. Infantaria 18, onde os revoltosos apenas contavam com uma pequena célula de oficiais, está inicialmente do lado do governo. Os oficiais ligados aos revoltosos, entre os quais o jovem tenente António Joaquim Correia, convencem o comandante a convocar uma reunião de oficiais, expõem as raízes da revolta e tentam aliciar a unidade. Obtém um êxito relativo: os oficiais decidem-se pela neutralidade e o comandante manda içar a bandeira branca. Entretanto a situação piora para os democratas. As forças do governo, reforçadas a partir de Lisboa e instaladas na Serra do Pilar, onde já se encontrava o ministro da Guerra, flagelam duramente as posições dos revoltosos. O comandante de Infantaria 18, ao ver que a sorte dos acontecimentos tendia para o governo, convoca nova reunião de oficiais e declara que vai colocar-se às ordens do governo e arrear a bandeira branca. Os protestos dos oficiais democratas e o apelo ao compromisso anterior não demovem o comandante e não convencem a generalidade dos seus camaradas. Estes oficiais, entre os quais o tenente António Joaquim Correia, decidem então, apesar de a situação ser já  desesperada para os revoltosos, abandonar o quartel e apresentar-se na Batalha, no quartel-general das forças revoltosas. Dois dias depois a revolta estava dominada e, com mais uma centena dos seus camaradas, o tenente António Joaquim Correia era preso e, tempos depois, deportado para Angola, situação em que se manteve durante dois anos.

Aqui começou o meu 25 de Abril!…»

De facto, foi esta a versão resumida da sua participação no 3 de Fevereiro que meu pai oralmente me transmitiu e que, até certo ponto, assumo como meu “código genético”.

Já agora, mais uma nota curiosa. Os dois anos de deportação cumpriu-os meu pai na então Vila Luso, um pequeno aglomerado populacional que nascia nos confins do leste de Angola, onde estava a chegar o Caminho de Ferro de Benguela. Pois foi na então já cidade do Luso (hoje Luena) que, há exactamente quarenta anos, eu fui colocado a cumprir a minha sexta comissão nas colónias, quando já conspirava na movimentação militar que levaria ao MFA. E no Luso estava quando se deu o 25 de Abril vitorioso que viria a ser o acto de que mais me orgulho da minha vida militar. Foi dali que fui chamado para Luanda para assumir funções da maior responsabilidade na instalação e dinamização da estrutura do MFA em Angola. O antigo tenente António Joaquim Correia, nessa data já falecido no posto de major, teria gostado de saber, teria sentido que o seu sacrifício tinha dado frutos.

Ironias de que a História é fértil.

 3 de Fevereiro de 2013

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