FRANCISCO DE SÁ (DE MIRANDA)
Esparsa
Serra a serpente os ouvidos
à voz do encantador:
eu não, e agora com dor
quero perder os sentidos.
Os que mais sabem do mar
fogem d’ouvir as sereias:
eu não me soube guardar,
fui vos ouvir nomear,
fiz minh’alma e vida alheias.
A “esparsa” é uma forma poética pertencente ao grupo das “trovas”, em geral mais curta e composta por uma única estrofe. O assunto continua a ser lírico-amoroso e o núcleo é aqui representado pela sedução. Das três relações justapostas – as que opõem a serpente ao encantador, o marinheiro à sereia, o amador à amada – note-se a divergência final de situações inicialmente paralelas.
Glossário: “fiz…alheias”: perdi.

