A HISTÓRIA PODE DAR ALGUMA AJUDA – IX – “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” – por Carlos Leça da Veiga

I –  “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”

Para muitos, a sentença contida na epigrafe encerra a verdade da evolução social, porém, o que, na realidade, tem acontecido é que as vontades, face aos problemas complexos das relações inter-humanas, desde tempos imemoriais, na sua essência profunda, continuam, por formas diferentes, a serem idênticas. Lutam, hoje como ontem, pela justiça social mas esse seu objectivo, que é, também, o seu próprio motor, ao longo dos tempos, vai conquistando novas facetas. Essa eterna vontade de justiça – a luta em seu favor – é que tem feito mudar os tempos e, por necessário, o mundo.

O autodinamismo que caracteriza o devir das relações sociais e que, na realidade, no longo decorrer dos anos, tem dado passos em frente na busca dessa justiça social, apesar disso, não tem sido o bastante para obstar, com a suficiência mais necessária, às adversidades impostas por muitos dos fenómenos sociais em que a mudança, feita por justaposição, consegue tomar a dianteira, permite-se induzir a alienação e, quase inevitavelmente, provoca injustiça. As vontades empenhadas na construção dum mundo melhor – mais justo e de bem-estar social – não mudam; o que muda são as expressões dialécticas das suas manifestações e, tem de reconhecer-se, são essas mesmas peculiaridades que dão ao tempo as colorações mais diversas.

Milénios sobre milénios, o enunciado de quanto possa ser entendido como justiça social, como o de tantas outras vontades, pensamentos, intenções, interpretações e necessidades humanas – mau grado a imposição violenta de imensos retrocessos – tem sofrido uma evolução muitíssimo favorável e disso, mesmo contra a maré, têm sido beneficiários um número crescente de Homens e Mulheres. A vontade não muda. Mudaram as ciências positivas; mudaram as ciências sociais. Os saberes viraram costas aos deuses. Os obreiros desses saberes – fossem quais fossem – esquecido o Olímpio, deram novos mundos ao mundo e, por isso mesmo, pode falar-se de progresso.

Sem querer, nem poder, esquecer-se a existência de bolsas humanas de miséria extrema, apesar de tudo – para as vitimas, isso não será grande consolação – em espaços mundiais muito alargados, por força da vontade humana, seja como for, têm-se alterado, no melhor sentido, os relacionamentos sociais de produção.

Tanto a consciência individual, como aquela colectiva que, sem esmorecerem, prosseguem na exigência do direito inalienável a uma justiça social, essas consciências, aparecem focadas, cada vez mais, na defesa duma outra redistribuição social – directa e indirecta – do rendimento alcançado pelo esforço laboral de todos, desde que o seu calculo seja ponderado, como deve ser, por uma justiça com equidade.

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