OS CONCEITOS DE EDITOR, DE LIVREIRO (PARA NÃO FALAR NOS AUTORES) ESTÃO A MUDAR – por Carlos Loures

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Lembro-me de entrar na Bertrand, na Sá da Costa, na Barata, perguntar por edições de  anos anteriores. Em todas estas livrarias e em muitas outras, havia quem soubesse encontrar o livro. Na Barata, o dono, um grande livreiro, rapidamente me localizava o que eu pretendia. Nas livrarias de Lisboa e Porto, em Coimbra  ou mesmo em cidades mais pequenas, como em Leiria, havia livreiros de grande cultura profissional, gente que estava ao corrente das novidades. Esses livreiros quase desapareceram. Há relativamente pouco tempo, numa livraria do Chiado, dois jovens empregados, um rapaz e uma rapariga, estavam mergulhados numa conversa que nada tinha a ver com livros. Esperei por uma pausa no diálogo, o que acabou por acontecer. Pedi um livro, dizendo o título, o nome do autor e a editora. A jovem, disparou prontamente .- De momento, não temos – e voltou à animada discussão com o colega. Saí. O livro estava na montra. Onde quero chegar? Não é à reflexão saudosista de «no meu tempo…» Nada disso. Os tempos mudaram. Já não há livreiros na antiga acepção do termo – quem trabalha hoje ao balcão de uma livraria, pode amanhã estar a servir cafés ou a apanhar fruta. As grandes cadeias de livrarias não se apoiam na memória e na cultura prodigiosa que alguns livreiros possuíam – apoiam-se na base de dados, nos programas especíificos. E os editores? E os autores?Os conhecimentos enciclopédicos dos antigos livreiros deixaram de ser necessários – estão armazenados na memória do computador. Em todo o  negócio do livro – de montante a juzante – quase tudo mudou.

A grande originalidade do negócio do livro estava no facto de para a maioria dos editores o livro não ser um negócio, mas sim uma paixão. Ao longo da minha vida profissional vi muitas pequenas fortunas desaparecerem no sorvedouro de edições mal sucedidas comercialmente. No pólo oposto – gente que tenha enriquecido no negócio dos livros, de poucas pessoas me lembro – os dedos de uma mão chegam para as contar.  E foi assim, até que se descobriu que o livro podia ser um bom negócio e, naturalmente, essa descoberta de grandes grupos económicos veio modificar todo o paanorama, todo o sistema de relações entre editores e autores.

Um velho editor confessou-me ter chorado quando um autor lhe exigiu a assinatura de um contrato. Tinham feito o acordo à mesa da Brasileira do Chiado e, por sua parte, homem de uma grande seriedade, o contrato era ofensivo. O escritor, muito conhecido, vinha de Paris onde já nada se fazia sem prévio acordo escrito – estava-se nos anos 30. E por mais quatro décadas as modificações não foram significaitvas. Quando, nos anos 70, cheguei ao mundo da edição, as coisas ainda funcionavam em moldes muito artesanais. Foi por essa época que as mudanças começaram a surgir.

Numa crónica que li recentemente falava-se das relações de amizade entre editor e autor. Os editores eram (e alguns ainda são)  confidentes, conselheiros dos autores em matérias que nada têm a ver com as edições. Nessa crónica falava-se de escritores que telefonam aos seus editores a meio da noite; que recebem o almoço em casa enviado pela editora (era o caso de um poeta surrealista); escritores que passam horas ao telefone com os seus editores em crises existenciais, de criatividade, bloqueios ou reclamações sobre alterações ao texto. São tudo coisas que não me espantam, pois vivi numerosos casos semelhantes. Um editor actual, mas que funciona ainda dentro deste espírito, sabendo que um seu autor, idoso, viúvo e vivendo só, almoçava num restaurante junto a casa, mas não comia à noite para não ter de cozinhar, contratou com o restaurante uma tarefa – todas as noites levarem ao velho escritor uma boa sopa.

«As relações profissionalizaram-se porque houve uma mudança de paradigma na edição», diz uma experiente esponsável editorial – e acrescenta:  “Essa mudança de paradigma deu-se a partir do momento em que os escritores deixaram de estar nas vanguardas, passaram a estar atrás do público em vez de estar à sua frente: agora os escritores escrevem para o público, já não é o público que vai atrás da novidade.” As leis do mercado regem agora também o mundo dos livros – o famoso editor argentino Muchnik contou numa entrevista: “Um dia disse à Carmen Balcells agente literária que representou Pablo Neruda, Gabriel García Márquez ou Mario Vargas Llosa] que era amigo de todos os meus autores. Ela respondeu-me que isso era mentira, ninguém é amigo de todos os seus autores. Há interesses, não amizades». Carmen Bacells saberá da sua experiência, do seu mundo de prémios Nobel e de gandes editoras. Também conheci no mundo editorial limitado, pataqueiro, de Lisboa, editores que já há quarenta anos pensavam do mesmo modo – toda a amizade que diziam existir tinha como objectivo o negócio. E escritores que funcionavam no mesmo comprimento de onda.

Mas a nota dominante era a de amizades verdadeiras forjadas no empreendimento comum de pôr um livro ao dispor dos leitores. Havemos de voltar a este tema.

 

1 Comment

  1. Creio que só não é de dizer “no meu tempo…” porque haverá sempre uns maduros com verdadeira vocação para livreiros. Mas dificilmente se encontrarão nos grandes armazéns de comercialização de “cultura”, onde só se descobre o que saiu “ontem”. Resistirão, sim, em locais mais modestos, mas duros de roer… Nunca esquecerei o Nuno, mais tarde ligado à “Galileu”, em Cascais (e que espero que continue vivo e de boa saúde, pois há muito que não o vejo nem dele tenho notícia), que conheci na LIVRELCO e passou, depois (quando esta cooperativa universitária foi “tomada” pelo MRPP, que decidiu proibir a venda das obras “burguesas” do Herberto Helder, entre outras imbecilidades, que nem os “ares do tempo” justificam ou desculpam…), pela DEVIR. O Nuno sabia tudo – de livros, editores, datas, referências… -, arranjava os livros mais esquivos, tinha contactos internacionais preciosos. Uma boa parte do núcleo inicial da minha biblioteca foi fruto do que o Nuno, e só ele, disponibilizava nessas duas cooperativas, incluindo, nomeadamente, preciosos livros de arte a preços muito acessíveis e o grosso dos autores de língua castelhana que fui descobrindo, incluindo os latino-americanos famosos e menos famosos, em fase de reconhecimento internacional – alguns nunca traduzidos, infelizmente, como o fabuloso “El obsceno pájaro de la noche”, do chileno José Donoso (de que chegou cá – que eu conheça – uma tradução brasileira “revista” de uma obra apresentada como a sua “mais importante”, o que, face à que referi, me parece uma estranha afirmação… e creio que ainda uma outra, de realização menos feliz); mas poderia fornecer uma lista assaz longa, só nesta área linguística, do que, na altura, só um livreiro “a sério” e muito atento se arriscaria a importar, para um número lamentavelmente reduzido de potenciais compradores. Além do prazer que era conversar com o Nuno e do proveito que dessas conversas retirava. Não foi o único, mas foi o mais importante dos livreiros que orientaram o meu gosto pela leitura em direcções a que, sem eles, só mais tarde e só no estrangeiro, eventualmente, chegaria. Tenho para com ele uma imensa dívida de gratidão. Nele homenageio, recordando-o, todos os grandes livreiros, sem os quais eu seria mais pobre, de saber e de prazer.

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