LUSO TROPICALISMO – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

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Em 1954, antes que a PIDE me deitasse a mão, saltei de Lisboa para a cidade de São Paulo, no Brasil. Ali faço boa amizade com o Ricardo, homem bem mais velho do que eu, mulato não muito escuro. Economista, tem um bom emprego no Banco do Brasil. Mas nunca é promovido. Os seus colegas brancos, que tinham entrado ao mesmo tempo do que ele, já ganham o dobro do seu salário. Diz-me:  

– Portuga: sou branco de menos para chefiar e branco de mais para fazer limpeza. Até entendo a Administração do Banco: preto, se não caga na entrada, com certeza caga na saída… 

Ele a troçar e eu a recordar a Casa Grande e Senzala do Gilberto Freyre, empadão a imitar a sociologia… A disposição do português para fornicar todas as mulheres, qual seja a cor que tiverem, não é democracia racial mas fúria genital. E parem lá de me salpicar com o luso tropicalismo para temperar o empadão… Palmadinhas nas costas mas fica aí no teu lugar, escraviza muito mais do que murros, palmatórias, chicotes, ou grilhetas. Em 1884 ocorre a Conferência de Berlim para a partilha da África pelas potências europeias, fronteiras traçadas a régua e esquadro cortando povos ao meio. Para os diplomatas, “tribos” é igual a “coisas”. Ingleses, franceses, belgas e alemães manejam os pretos como “coisas”. E com “coisas” não há trato, arrumam-se aqui, consomem-se ali, deitam-se fora quando se estragam. Já os portugueses tratam os pretos como homens, porém inferiores, eu aqui em cima, tu aí em baixo, estás a perceber ó escarumba? Palmadinhas nas costas, vai à vida e não te queixes, quem não trabuca não manduca… “Assimilados, portugueses de segunda”, é justamente como Salazar chama aos pretos. É mútua a simpatia entre Gilberto Freyre e António Salazar. Acaso? Pois, pois…

1 Comment

  1. E hoje? Como é hoje? O que acontece hoje nas relações internacionais, seja no nível diplomático ou no académico, ou no laboral…?? É que mudou tanto a “coisa”, senhores portugueses?

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