EDITORIAL – CONTINUA O GENOCÍDIO SILENCIOSO

Imagem2Foi no dia 11 de Fevereiro de 1961 que Adolf Otto Eichmann começou a ser julgado em Israel. Foi acusado de ter montado a plataforma logística do extermínio de milhões de seres humanos, em particular de judeus, durante aquilo a que os nazis chamaram a solução final, (Endlösung), Não consta que tivesse morto alguma das vítimas com as suas mãos – apenas manuseou números, estatísticas. Apenas encontrou formas expeditas de solucionar um problema do III Reich. Um mero burocrata, dir-se-á.

 Os dados, aqui já revelados, segundo os quais os portugueses são os europeus com maior incidência de doenças psiquiátricas é preocupante, sobretudo quando, a par desta revelação, as páginas dos jornais nos informam de alguns recentes suicídios antecedidos do assassínio dos filhos. Mães, dementadas pelo caos que esta austeridade que está a ser imposta à grande maioria dos portugueses, decidindo suicidar-se, preferem matar os filhos a deixá-los para trás, num mundo, ele próprio, insano e injusto. Não se elogia essa coragem – mas deve tentar compreender-se. O que provoca esta demência? Questões do foro sentimental, divórcios incluídos, poderão contribuir para o agravamento dessas patologias; porém, as situações de desemprego também desempenharão o seu papel. Muitos milhares de pessoas viram-se, de um mês para o outro, mergulhadas no pesadelo da indigência.

 Outro sinal preocupante é o que hoje os jornais revelam – o Ministério da Saúde anunciou que em 2012 as despesas com medicamentos, suportados pelos utentes e pelo Serviço Nacional de Saúde, foram os mais baixos dos últimos cinco anos. Segundo a informação, os utentes pouparam mais de 190 milhões de euros e o SNS teve, nas comparticipações, uma poupança de 151 milhões de euros, em 2012. Em volume de vendas, “o mercado é liderado pelo grupo dos medicamentos ansiolíticos, sedativos e hipnóticos”. A venda de medicamentos genéricos  aumentou 18,4 por cento, face a 2011.

No meio da selva de números, ressalta uma realidade – os portugueses estão a cortar nas despesas com a saúde, a recorrer mais aos genéricos (como sabemos, parte significativa da classe médica, desaconselha os genéricos, considerando-os menos eficazes).

A política neo-liberal está a matar pessoas – um genocídio silencioso, abafado, apenas revelado por estatísticas que quase ninguém lê. Aliás, até parece uma notícia positiva – os utentes gastaram menos e o SNS faz economias, sim,. mas quantas vidas custarão esses milhões de euros poupados? Passos Coelho, Vítor Gaspar e o resto do bando, estão a matar seres humanos, cortando nas despesas e procurando fazer boa figura perante as entidades que os tutelam. Não matam ninguém – não atiram crianças das janelas de hotéis, não proíbem os velhos de se medicar, nem os impedem de comer.

O burocrata Eichmann foi condenado à pena de morte e enforcado minutos após a meia-noite de 1 de Junho de 1962.A propósito da condenação de Adolf Eichmann, a professora israelita Hannah Arendt (à qual dedicámos já mais do que um post) escreveu o livro “Eichmann em Jerusalém”. Nele defende a tese da «banalização do mal» – ou seja, numa sociedade doente em que o mal, o desprezo pela vida humana, a prevalência do lucro, ficam acima dos sentimentos e dos princípios, o mal banaliza-se, o crime institucionaliza-se. E logo aparecem os Eichmann, os Coelhos e Gaspares que «apenas» criam as plataformas logísticas – meros burocratas.

1 Comment

  1. Uma recordatória oportuna e ajustada. A dimensão do Mal não se confina às abjecções extremas que se despenham sobre os seres humanos com mais visível violência: ele existe também, com idêntica mas mais lenta e disfarçada violência, nos que, sob a capa da “legitimidade democrática” (que também estendeu o tapete à “irresistível ascensão” de Hitler), enganam e traem aqueles que em suas mãos manhosas e desprezíveis depositam, ingenuamente, os seus desprotegidos destinos.

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