EUGÉNIO TAVARES – OS PRIMEIROS PASSOS NA POESIA.

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Com cerca de 12 anos, escreve os primeiros poemas. São lidos, primeiro em casa e depois, de mão em mão, começam a espalhar-se pela ilha. Aprende a tocar guitarra portuguesa e surgem as suas primeiras composições musicais. No Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro, é publicado um poema de que dedica a sua madrinha, D.Eugénia da Vera Cruz Medina e Vasconcelos, irmã do Dr. José da Vera Cruz e viúva do poeta Sérvulo Medina e Vasconcelos, a Badinha, como carinhosamente a trata: (…) Amo-te ó minha mãe e/bendita seja a fonte/inexaurida de bondade/maternal que emana do teu/espírito. Tudo com origem no/ amor, nada com origem no/ sangue. Tem apenas 15 anos. É o êxito obtido localmente com este primeiro poema que leva os pais adoptivos e os amigos da família a reconhecer que a Brava, apesar de possuir uma notável elite intelectual, é um meio demasiado restrito, limitado, para um espírito superior e destinado a altos voos, como é o de Eugénio.

Assim, em 1886, vai para a vila do Mindelo, na ilha de São Vicente, onde se emprega numa casa comercial que funciona também como consulado dos Estados Unidos. Desde 1874, a cidade está ligada à Madeira, à Metrópole e ao Brasil por um cabo submarino instalado por uma companhia britânica. Essa circunstância, ligada à concessão de depósitos de carvão, quebra o ancestral isolamento e gera no Mindelo um inusitado movimento portuário, de cargueiros e de transatlânticos, chegada e partida de estrangeiros, movimento ímpar no arquipélago. A vila converte-se num centro cosmopolita que deslumbra o jovem poeta bravense e que enriquece a sua criatividade. Como ele próprio dirá num texto publicado no Notícias de Cabo Verde, jornal publicado na Praia: «Ruas atafulhadas de gente que fala em todas as línguas, espécimes de todas as raças, exibição de todos os vestuários, de todos os costumes, de todos os tipos.» Rapidamente, aprende francês e inglês e inicia a sua colaboração nos jornais locais e no Notícias de Cabo Verde. O Mindelo passa a ser, depois da Brava, o seu segundo local de eleição. Virá a encabeçar a luta pela elevação da vila a cidade. De notar que o ano de 1886, em que Eugénio chega ao Mindelo, é o da eclosão da revolta na ilha de Santo Antão. Em 17 de Abril, mais de mil pessoas que partem de diversas freguesias do Paul, marcham sobre Ribeira Grande e ocupam durante cinco dias a praça do Concelho e várias repartições públicas. Protestam contra vexames, injustiças e, sobretudo, contra os impostos exagerados.

Curiosamente, é um outro poeta, Januário Leite (1867-1930), acusado de pertencer ao núcleo de activistas que instiga os violentos motins. Nascido na Vila das Pombas, Concelho do Paul, na ilha de Santo Antão, será também acusado de fomentar e participar na revolta de 1894. As coincidências entre Eugénio e Januário não se ficam por ambos serem poetas e descendentes de europeus, pois ambos são autodidactas, dedicando as suas vidas à cultura, ambos professam o ideal republicano, ambos nascem em 1867 e ambos morrem em Junho de 1930. De Januário Leite apenas foi publicado um volume póstumo (em 1952) sob o título de Poesias.

A influência de seu pai permite-lhe, em 1888, conhecer novos horizontes – é colocado como Recebedor da Fazenda Pública no Concelho do Tarrafal. Vindo do Mindelo, onde na vida social a matriz europeia se sobrepõe à africanidade da geografia, ao chegar a Santiago depara-se-lhe Cabo Verde em toda a sua verdadeira autenticidade e plenitude – o cruzamento entre duas culturas, a portuguesa e a africana – redundando numa mestiçagem plena de cor e de vida próprias. As crioulas são lindas. Eugénio demora-se na sua contemplação e dedica-lhes poemas: A Virgem Maria/pura mãe de Deus/seria crioula? /sim; nos sonhos/meus, contemplo-a, morena, filha de plebeus, / (…) A doce crioula/pequenina flor/é como a violeta no/aroma, na cor. Na realidade, Santiago fascina-o – a sua palpitante vida, as suas gentes, sobretudo, como já se viu, as jovens crioulas. Começa agora a compreender o mosaico constituído por Cabo Verde, na sua diversidade étnica e na sua pluralidade sociocultural. Um dos seus mais importantes biógrafos, João José Nunes (1885-1965), seu discípulo e também poeta, também ele nascido na Brava, afirma que a estada em Santiago, constitui a terceira componente cultural de Eugénio Tavares (sendo a Brava e São Vicente, as duas primeiras). Ama particularmente a vila do Tarrafal, a sua praia e a vasta paleta de azuis que o mar ali oferece. Porém, apesar disso, as saudades da sua ilha, devoram-no. Estamos em 1889. Eugénio, agora com 22 anos, sente-se ansioso por regressar. Mais uma vez, a influência de seu pai se faz sentir – é nomeado Recebedor da Fazenda Pública da Brava.

CONTINUAREMOS A FALAR SOBRE EUGÉNIO TAVARES NA PRÓXIMA SESSÃO DA NOITE

AQUI FICA MAIS UMA DAS SUAS MORNAS,  A MORNA “GALOPE”,  NA INTERPRETAÇÃO MUSICAL DE MOISÉS & GILBERTO ÉVORA

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