SE AO MENOS FOSSEM COMO EU, QUE ESTOU A TENTAR ENTENDER A VIDA… – por Ethel Feldman

Um Café na Internet

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Fui à bruxa saber que mal me assiste. Colocou-me numa sala pequena e pediu-me para esperar. Ainda atendia outro cliente na sala ao lado. Isabela conta que desde que Amélia, a bruxinha, a atendeu a vida passou a ser outra. Olho para a minha amiga, magra, sempre de luto a falar do mau olhado que a amante do marido fez. A vida assim desenhada parece um filme de terror.

Amélia regressa à sala. Olha-me através daqueles óculos gigantes e pretos.

Pergunto-me, vezes sem conta, afinal o que estou eu aqui a fazer. Será que ela acende umas velas e o emprego aparece? E os males de amor, são curados com rezas e ervas?

– Como se chama?

Balbucio entre dentes, porque sinto medo do que pode ela fazer com o meu santo nome…

– Querida, levante-se e vire de costas.

Olho para minha cunhada que há já uns largos meses me acompanha nesta minha peregrinação ao mundo que vê o que eu não consigo e sabe qual o meu destino. Sim, porque ele está escrito. Nisto são todos unânimes, mas quanto à razão da minha desgraça, cada um acede a um mal diferente.

O astrólogo recomendou-me fazer uma carta de vidas passadas, uma senhora muito sábia disse-me que se eu fizesse uma regressão, seria a solução de todos os meus problemas. Devem ter razão porque não me lembro de ter feito mal a alguém desde que nasci. Sou amiga dos meus amigos e até dos desconhecidos.

Na tabacaria, a dona Judite tenta acalmar-me:

– Oh, Ivana, não vê? É da crise. Não vê televisão? Os comentadores dizem que quem hoje fique sem emprego, nunca mais deixa de ser desempregado.
– Mas o que isso acrescenta, dona Judite?
Sigo para a ervanária e avio uns chás que limpam o corpo. Ainda tenho de comprar cerveja preta e espalhar pelo muro da minha casa enquanto repito:

– Vai-te embora. segue a tua vida e sê feliz.

Não sei bem o que estou a fazer, mas a Amélia disse-me que tenho um encosto. Deu-me imensos murros e abanões nas costas e gritou com uma voz estridente:

Vade retro Satanás! vade retro!

Tenho o corpo dorido, mas foi por uma boa causa. Afinal se o encosto sair eu estarei liberta.

Alfredo disse-me que estou a beirar a loucura e por mais que tente explicar-me a crise, eu sei que o mal é outro. Ele traiu-me e traz no corpo o pecado do adultério. Um mau olhado certamente. Vai-se embora de casa porque não consegue competir com o meu encosto. É mais forte que ele.

Perdemos o emprego e a saúde. Faltam-me as forças para dormir e acordar.

Bem que a Amélia avisou que a desgraça ia continuar. Pediu-me mais 100 euros para encomendar outro trabalho. Precisa da ajuda de uns fantasmas mais poderosos. Os que vivem para além das trevas e só aparecem às videntes.
Não que eu seja contra e as pessoas precisam ser pagas pelo seu trabalho, mas a segurança social não me paga estas consultas.

O povo anda mesmo iludido. Para quê tantas manifestações? Não resolvem nada, só aumentam a nossa dívida. Porque não deixam os homens lá em cima trabalhar?

O senhor David não se livra amanhã de passar a fatura da bica. Ah, não se livra não! Comigo é assim. Não sustento ladrões.

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