É SÓ PORRADA… por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

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Estamos em 1953. O que tu adoras, ó surrealista, ó Mário Henrique, ó Leiria, é choques em cadeia… Também te dá muito gozo atropelar os adeptos do neo-realismo. Aproximas-te da mesa do Manuel Ribeiro Pavia e começas a espicaçá-lo por causa das ceifeiras rechonchudas que não pára de esboçar, desenhar e colorir. O Pavia não te suporta, é trombudo por natureza, leva tudo a sério. Guarda os desenhos, fecha a pasta, levanta-se, vira costas, vai-se embora. Não desistes e começas logo a mordiscar o José Dias Coelho, aquele escultor, teu antigo condiscípulo na Escola de Belas Artes, aquele apóstolo comunista que a PIDE irá matar a tiro numa rua do bairro de Alcântara. Mas não consegues varar as suas naturais defesas, ele desmancha-se a rir com as tuas investidas e acaba por te dar um grande abraço. Saudade tens, saudade temos da fraterna inteireza do Zé Dias…

Ó Mário Henrique, andas sempre à porrada. Não só com os neo-realistas mas também com os surrealistas do teu grupo. Não vos entendo, é a briga do Cesariny de Vasconcelos com o António Pedro, e depois tu para um lado e o Alexandre O’Neill para outro enquanto na primeira sala do Café, sentado a uma mesa, o poeta António Maria Lisboa vai morrendo aos poucos, tuberculose. Apesar de vocês terem feito obras coletivas, como as colagens da Afixação Proibida, os vossos burrinhos estão sempre a puxar cada qual para o seu lado. Porrada, é só porrada… Até que um dia me dizes e passo a entender-te melhor:

– O meu avô é que era um gajo porreiro e muito giro. Pertencia à Carbonária. De segunda a sexta-feira trabalhava e nos fins de semana não descansava, fazia a Revolução. Viva o meu avô!…

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