A OUTRA EQUAÇÃO – Por José Fernando Magalhães (14)

 

 

À CONVERSA COM A VIDA  10

 

O PROBLEMA DA HABITAÇÃO

 

 

 

Maria Carolina e José conheceram-se em Outubro de 1940 na Escola Oliveira Martins, na rua das Taipas.

Eram ambos trabalhadores-estudantes e percorriam diariamente o mesmo trajecto, ao fim do dia, depois do trabalho. Ela saía da rua de Sá da Bandeira, em frente ao Bolhão, e ele da esquina da rua de Santa Catarina com a rua Formosa.

Em pouco tempo se tornaram inseparáveis nesse percurso. Aos poucos, apesar da resistência do irmão da moçoila, que lhe servia de companhia no regresso a casa, José passou a acompanhá-la até à esquina da rua onde ela vivia.

Um ano depois, ele já com dezassete anos e ela quase a fazer dezasseis, decidiram namorar. Nessa altura já a escola tinha passado para a Rua do Sol. Mais próximo dos empregos de ambos.

 

Maria Carolina era a filha mais velha de um casal oriundo de Freamunde e de Figueiró, em Paços de Ferreira. Ele trabalhava na Shell e ela era uma modista reputada. Ambos viviam com dificuldades económicas, agravadas pela Guerra, pelo racionamento de bens essenciais e pela falta de dinheiro dos potenciais clientes

 

José era o filho mais novo de entre cinco irmãos. Na altura o irmão mais velho estava bem encaminhado para estudar advocacia em Coimbra, e as três irmãs estavam já a estudar no Porto, no Magistério Primário, com o objectivo de se tornarem professoras. Os maus negócios do pai, acrescidos das dificuldades dos tempos que corriam, fizeram com que não houvesse dinheiro disponível para que ele estudasse mais. Decidiu então vir para o Porto, empregar-se e estudar à noite. Arranjaram-lhe emprego na loja de um tio, onde se viria a tornar um excepcional funcionário. Lá aprendeu os segredos da gerência e se tornou indispensável.

 

O namoro entre Maria Carolina e José tornou-se muito sério em pouco tempo. A resistência da família dele apenas acicatou o amor que ambos nutriam um pelo outro. Em 1945, já lá iam quatro anos de namoro, a guerra acabou e começaram a pensar em “juntar os trapinhos”. José ganhava bem, para um trabalhador do comércio. O ordenado de Maria Carolina, embora diminuto, era muito necessário para ajudar os pais.

Pensaram nas possibilidades que teriam de vir a possuir, um dia, casa própria. Os pais dele poderiam fornecer o terreno, o que era uma grande vantagem. Foi nessa altura, que descobriram uma cooperativa que se dedicava a construir casas económicas. José, que vivia numa pequena pensão da rua do Almada, passava muitas vezes pela Praça da República e nunca olhara para a porta do Palácio das Águias. Um dia olhou e leu a placa que, a letras gordas, estava na ombreira. Entrou e tentou saber que firma era aquela. À noitinha, nas aulas, contou a Maria Carolina o que tinha ficado a saber, e o entusiasmo foi instantâneo. Inscreveram-se no dia seguinte, e com enorme sacrifício começaram a pagar as quotas mensais.

Tratava-se da Cooperativa O Problema da Habitação, que com eles celebrou um contracto para integrar um projecto de construção.

 

Passaram-se mais alguns anos. Estávamos já em 1949. José e Maria Carolina resolvem casar. O casamento ficou marcado para o dia 5 de Março do ano seguinte.

E assim foi! Foram viver para uma casa muito antiga na rua do Monte da Luz, na Foz do Douro. A vida era difícil. Nada era desperdiçado. Maria Carolina trabalhava já há algum tempo num hospital da cidade. Engravidou quase de imediato, mal casou.  A gravidez chegou ao fim, mas teve um desfecho trágico. A criança, grande, muito grande, não resistiu às complicações do parto. E a vida endureceu. A perda marcou profundamente os dois.

Três anos depois, nascido já o segundo filho, chegou a tão esperada notícia. Tinham sido contemplados com a possibilidade de construir a casa que tanto sonharam. Um prédio, com três pisos, para poderem viver num e alugar os restantes. Um quintal, onde podiam ter uma horta, e fruta, e flores, e um galinheiro.

A Cooperativa mandara uma carta a confirmar tudo. A leitura da carta provocou um receio difícil de explicar. Um baque, um acelerar do coração, um calor na cara. Era agora. E um novo problema chegou. Já estavam a contar com ele. Faltava arranjarem quinhentos contos para começar a construção. Uma enormidade de dinheiro. Parecia impossível.

A honestidade e o bom nome na praça acabaram por lhes abrir uma porta. Apareceu um amigo, que acreditou neles. Conseguiram o empréstimo, com juros, a pagar em vinte e cinco anos. Sabiam que assumiam uma obrigação enorme. Aceitaram-na, e cumpriram-na, mesmo quando isso significava adiar outras necessidades. Podia faltar dinheiro para o aquecimento, para roupas melhores ou para sapatos, mas para pagar as obrigações, não. Pouco tempo depois, enquanto o prédio se ia construindo, outra menina nasceu. Eram agora quatro. O esforço passou a ser maior, mas nada os amedrontava. Até que, em 1957, a casa lhes foi entregue.

Fizeram a mudança. Pouco havia para mudar. Os armários e as mesinhas de cabeceira dos quartos eram feitos de caixotes de madeira que almas boas lhes tinham oferecido, tapados por cortininhas de chita. A mesa de sala de jantar e as quatro cadeiras, velhas e carunchosas, tinham vindo, aquando do casamento, como oferta. Os pratos e copos e talheres, desirmanados, também. As camas das crianças tinham sido feitas com o mesmo material dos armários, e os colchões eram de folhelho. O fogão, esse, deveria ter mais de vinte anos, mas funcionava. Mas nada disto lhes tirava a alegria. Um gesto, um afago, um sorriso, bastavam, para tornar o dia mais leve.

Na primeira noite que passaram na nova casa, provavelmente ninguém dormiu. Pelo menos Maria Carolina e José não o conseguiram fazer. A excitação era enorme. A alegria difícil de conter. Havia o cheiro a casa nova, o silêncio cúmplice entre os dois, as janelas abertas para as traseiras, com árvores frondosas ao fundo, e os filhos adormecidos, vencidos pelo cansaço e excitação. Havia um quarto para eles e um para cada um dos filhos. Três casas de banho, um sótão e… um quintal. E José, já tinha andado a plantar mimos nos últimos meses. As árvores de fruta tinham sido plantadas há mais de um ano, o galinheiro tinha galinhas, e ovos todos os dias. Ao fundo, a ramada de uva americana prometia uvas para dali a uns meses. A felicidade era bem palpável.

Pouco tempo depois os andares, rés do chão e primeiro andar, estavam já alugados, e começou a ser mais fácil cumprir com os compromissos. Quando o filho mais velho começou a frequentar a escola, mesmo ao lado da casa, foi importante o apoio de outra organização, a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT), que, entre outras coisas, ajudava os filhos dos trabalhadores seus associados na compra de livros e outros materiais. Antes do início das aulas, a 7 de Outubro, José dirigia-se à Praça da Batalha, junto ao cinema Águia d’Ouro, levando uma relação dos livros, cadernos e restantes materiais que os filhos precisavam. Regressava depois, sempre antes do fim de Setembro, para levantar o que tinha pedido. Sem falhas, sem atrasos.

Como aconteceu com muitas outras famílias, assim se fez a vida desta. Não sem perdas, não sem dificuldades, nem por milagre. Houve trabalho, houve sacrifício, houve quem ajudasse e houve uma porta que se abriu quando quase parecia impossível. A casa ficou. E, com ela, a memória de tudo o que fora preciso para a alcançar e daqueles que a construíram.

 

 

O PROBLEMA DA HABITAÇÃO

 

FNAT

 

 

 

 

2 Comments

  1. Com esta “viagem” recuei 70 anos de Porto! Até porque nasci na Rua do Sol, em frente à meia-laranja da entrada para a Oliveira Martins…

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