«TRISTE REGRESSO»
O Eugénio Tavares que chega à Brava em 1890, já não é o mesmo que dali saíra anos antes. Agora conhece, senão na totalidade, pelo menos uma boa parte do arquipélago e pode sonhar com a transformação da colónia num local de onde a injustiça social e a carência de alimento cultural, sejam erradicados. Ao conhecimento da sua ilha natal, acrescenta as estadas em São Vicente e Santiago. Consta que, já no século XX, terá visitado também a Boavista, mas não existem dados concretos quanto a esta eventual viagem. Sobretudo, importa-lhe destacar a existência de uma entidade cultural autóctone, perfeitamente diferenciada da matriz metropolitana. Dada a diversidade dos crioulos de cada ilha, a língua portuguesa é utilizada como eixo estruturante da cultura cabo-verdiana – afinal o Brasil, o grande Brasil, não necessitou de outro idioma para afirmar a sua pujante cultura. Na verdade, a sua opção pelo português, pelo menos nos trabalhos jornalísticos, na ficção, no teatro. não significa que o crioulo não lhe sirva também de veículo para chegar ao coração do povo. Eugénio Tavares é, pois, um escritor e um jornalista bilingue – a sua obra jornalística e a sua prosa, utilizam preferentemente o português. O crioulo, emprega-o ele nas letras que escreve para as mornas – assim, em 1895 (?) publica Manidjas – Canções, o primeiro livro escrito em crioulo.
Entre 1890 e 1900, frequenta a elite cultural que, formando-se no crisol intelectual da Brava, depressa irradia para as outras ilhas, inclusive para Santiago. Casa com D. Guiomar Leça, que será a sua companheira até ao fim da vida, uma esposa discreta, sem interferência na vida literária e política do marido. Adere à Maçonaria, mas não se conhece com precisão a data da sua adesão. Casimiro Monteiro, grão-mestre da Maçonaria cabo-verdiana, é seu compadre e grande amigo. Acompanhado por Loft de Vasconcelos, desenvolve na imprensa uma campanha que visa a alfabetização dos cabo-verdianos e a supressão de injustiças sociais que a administração colonial não logra esbater. O governador-geral, Alexandre de Serpa Pinto, que chega ao arquipélago em 1894, compreende razão de ser da sua luta e estimula-o a prosseguir.
Em Lisboa, este surto de desenvolvimento cultural, esta sede de progresso, cheira a sedição. Serpa Pinto deixa o arquipélago em 1897 e é substituído no cargo por João Cesário de Lacerda, que chega preparado para acabar com as veleidades republicanistas, com as reivindicações e literatices locais. Eugénio é chamado ao Palácio do Governo, na Praia, e explicitamente repreendido por Cesário de Lacerda, que o proíbe de fazer referências na imprensa, à fome que então assola Santiago. Quando, de forma brutal, o punho de ferro deste homem começa a sufocar a voz nascente e clara dos intelectuais em sintonia com os anseios populares, em 1900, na Revista de Cabo Verde, Eugénio Tavares enfrenta o Governador, dizendo-lhe: Senhor Governador de Cabo Verde (…) Eu exijo para o povo aquilo que de direito sei ser do povo; porque sobre o facto de lhe ser negado provar que lhe não seja devido pode muito bem o não dar hoje preparar o ter que dar amanhã. (…) Por isso exijo; não peço. Quereis saber quem sou eu para exigir? Sou uma vontade e, por conseguinte, uma força. Claro, palavras como estas não caíram em saco roto – Eugénio Tavares é falsamente acusado de ter cometido uma fraude no montante de 16 contos de réis nas suas funções administrativas. Processado, é suspenso e condenado. Começa o calvário que o conduzirá ao exílio.
Esta Revista de Cabo Verde, publicada na Metrópole por Luís Loft de Vasconcelos, é um dos espaços privilegiados por Eugénio para exprimir as suas ideias. No seu livro Os Filhos da Terra do Sol – a formação do Estado-nação em Cabo Verde, diz a professora paulista Leila Leite Hernandez (que também alude ao papel da Revista editada por Loft de Vasconcelos): «…no início do século XX, tanto as ideias procedentes dos Estados Unidos, como as dos demais centros transmissores, convergem para o republicanismo que, aliás, impregna várias sociedades recém-independentes. É importante notar que nesses anos formam-se dois espaços de luta. Um, por parte dos que trabalham para assegurar o triunfo da República em Portugal,» (…) «Por sua vez, há o espaço de luta no próprio arquipélago, já anunciado pelos revoltosos de 1886, em Santo Antão, ao incorporarem a suas reivindicações a necessidade de substituir o governo monárquico pelo republicano. Assim, também em Cabo Verde, os princípios do republicanismo passam a ocupar o centro de todas as polémicas, informando a consciência histórica da elite crioula.»( LEITE HERNANDEZ, Leila, Os Filhos da Terra do Sol – a formação do Estado-nação em Cabo Verde, Selo Negro Editora, São Paulo, 2002)
HORA DI BAI, HORA DI DOR – O EXÍLIO NOS ESTADOS UNIDOS.Numa noite de Junho de 1900, alguns pescadores da Baía da Furna vêem um navio de guerra hasteando a bandeira portuguesa, com os motores parados, silenciosamente, usando apenas a impulsão do velame, sulcar as águas da baía. Depois, duas lanchas transportam cerca de duas dezenas de soldados para terra. Cercam a casa de Eugénio e criam um dispositivo para o prender. Afortunadamente, o poeta estava numa festa de aniversário, em casa do compadre Nhó Lepeu, em Tomé Barrás. O destacamento de infantaria da Marinha dirige-se a essa casa e monta novo perímetro de cerco. Num lance tragicómico, Eugénio disfarça-se de velhinha e consegue fugir. Em 12 de Junho de 1900, Eugénio embarca no navio B.A. Brayton com destino aos Estados Unidos. Diz Eugénio: «À tardinha, quando o cinzento perfil da ilha se diluiu no roxo do horizonte, desci à câmara, estendi-me no beliche e me pus a revolver na ferida da minha dor o punhal lacerador da saudade.» (…) «Que ia eu fazer à América? Como, ali, preencher o vácuo que eu tinha no coração? Viver, com que recursos? Sofrer, com que ânimo? Lutar, com que forças? Que ia eu fazer à América?». Ao cabo de 29 dias de viagem, o barco fundeou no porto de New Bedford. Começava uma década de exílio. Uma década de martírio, mas durante a qual, em todo o caso, Eugénio desenvolveria grande actividade, sobretudo como jornalista. Em New Bedford, Massachusetts, Nova Inglaterra, onde reside com outros emigrantes cabo-verdianos, funda o jornal Alvorada e colabora em muitos outros, nomeadamente em periódicos portugueses e brasileiros. O Alvorada (que se publicará até 1917, portanto mesmo depois do regresso do poeta a Cabo Verde, em 1910), tem como objectivo principal ser «a voz dos emigrantes desprotegidos». Durante esse tempo de exílio, que só terminará com a proclamação da República em Portugal, o poeta visita por diversas vezes, de forma clandestina, a ilha Brava. Tem dois sobrinhos, filhos de Cidália uma irmã de Guiomar, sua cunhada, portanto. Crianças que ele adopta, seguindo o exemplo de seus pais adoptivos. Adora-os e eles retribuem esse amor. Os pequenos José e Luísa, constituem um dos principais motivos para as suas arriscadas e furtivas visitas à sua ilha.

