MUNDO CÃO – NÚMEROS, PREVISÕES E MENTIRAS – por José Goulão

Mês após mês, numa Europa rendida à crise porque os seus chefes continuam a aplicar como solução aquilo que a provoca, surgem os anúncios dos indicadores estatísticos sobre o estado da economia. E mês após mês, na maioria dos países, os dados são piores que os anteriores e muito piores até dos que os registados há um ano na mesma altura.

Apurados os dados, proferem-se os comentários. Primeiros-ministros, ministros, porta-vozes e equivalentes reconhecem invariavelmente que os resultados são maus, quase sempre piores do que os esperados, mas não há que desesperar. No próximo mês… No próximo ano dar-se-á a inversão, onde agora existe recessão passará a haver crescimento, talvez o desemprego até ainda venha aumentar um bocadinho mas tal é necessário para que, daqui a pouco, claro, comece a diminuir.

Os números e os comentários coexistem com os padrões de comparação, as previsões dos vários agentes, sobretudo governantes, que depois de olharem as bolas de cristal e consultarem os gurus – obrigatoriamente neoliberais – dizem que o crescimento da economia vai ser “tal”, o desemprego será “outro tal” e se tudo correr como deve ser, isto é, se a austeridade for respeitada sem mácula, a dívida será “outro tal e tal”.

Quando as sentenças dos números chegam verifica-se, em cem por cento dos casos, que os resultados são sempre piores ou muito piores do que as previsões, às vezes os “enganos” são astronómicos.

Nada sucede, porém aos que erram desta maneira. Como dizem os nossos irmãos brasileiros, com as “caras de pau” próprias dos aldrabões incuráveis vêm ministros e secretários explicar que “por isto e por aquilo” a coisa não correu como estava previsto mas que ninguém duvide de que na próxima será melhor. E na próxima volta a ser, inapelavelmente, pior.

Parece um jogo. Ou até um caso de apostadores azarados ou frequentadores daqueles casinos e sistemas viciados em que a casa fica sempre a ganhar. Entre números e previsões, os dirigentes dos governos da União Europeia, e a haver exceções não se dá por elas, cultivam um regime de mentira para continuarem a aplicar políticas incorretas que garantem ser as ajustadas, sabendo em absoluto que não são.

Enganos admitem-se toleráveis quando não se deteta má-fé; erros até os políticos podem cometer, como qualquer pessoa, embora as taxas de falhanço de cem por cento em nada abonem na sua competência para exercerem os cargos. Mentir, sobretudo mentir deliberadamente é um comportamento inadmissível, incompatível com a democracia, próprio de quem não quer saber dos outros para nada, a não ser na altura de votar – em que se mente ainda mais prometendo-se o que jamais se cumprirá.

O mais grave de tudo é que não se trata de uma brincadeira com números, de um jogo em que se erra e, por acaso, às vezes acerta-se. O mais grave é que do outro lado estão pessoas, as vítimas de políticas cruéis, desumanas, insensíveis, em muitos casos criminosas. O desemprego, por exemplo, não é uma percentagem abstrata, um número que se atira para o ar tanto fazendo ser x como y. Na União Europeia há mais de 26 milhões de pessoas sem trabalho: não é uma curiosidade, é uma tragédia.

Eis a diferença entre tecnocracia e humanismo, entre autoritarismo e democracia.

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