ANRIQUE DA MOTA (excerto)
(Depois do lamento do clérigo pela perda do vinho, entra em cena a escrava negra, à qual ele tenta atribuir-lhe a culpa. A negra, como depois em todo o teatro do séc. XVI, fala um português aproximativo, que era então, muito provavelmente, motivo de riso por parte dos espectadores).
(…)
Clérigo Ó perra de Manicongo,
tu entornaste este vinho!
Uma posta de toucinho
t’ei de gastar nesse lombo!
Negra A mim nunca, nunca mim
entornar.
Mim andar augua jardim!
A mim nunca far roim!
Porque bradar?
Clérigo Se não fosse por alguém,
perra, eu te certifico…
Negra Bradar com almexerico
Álvaro Lopo também;
vós logo todos chamar,
vós beber,
vós pipo nunca tapar!
Vós a mim quero pingar!
Mim morrer!
Clérigo Ora, perra, cal-te já,
se não matar-t’ei agora.
Negra Aqui star juiz no fora:
a mim logo vai té lá!
A mim também falar mourinho,
sacrivam.
(…)
Clérigo Ora te dou ó diabo!
Rogo-te já que te cales,
que bem m’abastam meus males
que me vêm de cada cabo.
Olhai a perra que diz
que fará:
irá dizer ó juiz
o que fiz e que não fiz,
e crê-la-á!

