POESIA AO AMANHECER – 140 – por Manuel Simões

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ANRIQUE DA MOTA (excerto)

(Depois do lamento do clérigo pela perda do vinho, entra em cena  a escrava negra, à qual ele tenta atribuir-lhe a culpa. A negra, como depois em todo o teatro do séc. XVI, fala um português aproximativo, que era então, muito provavelmente, motivo de riso por parte dos espectadores).

(…)

Clérigo  Ó perra de Manicongo,

tu entornaste este vinho!

Uma posta de toucinho

t’ei de gastar nesse lombo!

Negra     A mim nunca, nunca mim

entornar.

Mim andar augua jardim!

A mim nunca far roim!

Porque bradar?

Clérigo   Se não fosse por alguém,

perra, eu te certifico…

Negra     Bradar com almexerico

Álvaro Lopo também;

vós logo todos chamar,

vós beber,

vós pipo nunca tapar!

Vós a mim quero pingar!

Mim morrer!

Clérigo   Ora, perra, cal-te já,

se não matar-t’ei agora.

Negra     Aqui star juiz no fora:

a mim logo vai té lá!

A mim também falar mourinho,

sacrivam.

(…)

Clérigo   Ora te dou ó diabo!

Rogo-te já que te cales,

que bem m’abastam meus males

que me vêm de cada cabo.

Olhai a perra que diz

que fará:

irá dizer ó juiz

o que fiz e que não fiz,

e crê-la-á!

Anrique da Mota deixou cinco peças no Cancioneiro Geral:”O Processo de Vasco Abul”, “Pranto do Clérigo”, “Farsa do Alfaiate”, “Farsa do Hortelão”, “Lamentações da Mula”. Como diz Óscar Lopes, são “já farsas ou prantos teatrais cuja relacionação cronológica com os de Gil Vicente levanta problemas ainda não resolvidos”.

Glossário: “Manicongo”: natural do Congo; “Mim andar augua jardim”: Eu dou água ao jardim; “almexerico”: guarda; “pingar”: espécie de punição aplicada aos escravos negros; “star juiz no fora”: está o juiz f

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