GIL VICENTE
(cerca de 1465 – cerca de 1536)
AUTO DA ÍNDIA (fragmento)
Depois da representação da viagem do “Marido” à Índia e das aventuras galantes da “Ama”, chega a notícia da chegada da “Garça” ao Restelo e, com ela, do regresso do “Marido”:
(…)
MARIDO Oulá.
AMA Ali má hora este é.
Quem é?
MARIDO Homem de pé.
AMA Gracioso se quer fazer.
Subi, subi pera cima.
MOÇA É noss’amo, como rima!
AMA Teu amo? Jesu, Jesu,
alvíssaras pedirás tu.
MARIDO Abraçai-me minha prima.
AMA Jesu, quão negro e tostado!
Não vos quero, não vos quero.
MARIDO E eu a vós si, porque espero
serdes mulher de recado.
AMA Moça, tu que estás olhando,
vai muito asinha saltando,
faze fogo, vai por vinho
e a metade dum cabritinho,
enquanto estamos falando.
Ora como vos foi lá?
MARIDO Muita fortuna passei.
AMA E eu, oh quanto chorei,
quando a armada foi de cá.
E quando vi desferir
que começastes de partir,
Jesu, eu fiquei finada,
três dias não comi nada,
a alma se me queria sair.
(…)
O texto integral é constituído por 58 estrofes, quase todas de nove versos, das quais se transcrevem apenas três. A matéria nuclear da farsa é a da intriga à volta do tema do “Marido enganado”, o que constituía uma novidade no teatro do Autor até à representação do Auto, que terá acontecido em 1509. Surpreendente é também o modo licencioso como falam e agem as figuras da farsa, com situações e comportamentos que recordam, sem dúvda, o clima de alguns contos do “Decameron”, de Boccaccio.

