200 anos de uma das obras-primas de Jane Austen
Em 1813, justamente duzentos anos atrás, saia anônimo pelo editor londrino Thomas Egerton um romance que logo conquista grande fama, vindo quase imediatamente traduzido para o francês. Tratava-se de Pride and prejudice (Orgulho e preconceito), de Jane Austen (1775-1817), em ordem de criação o primeiro dos seis romances concebidos pela autora inglesa, começado que foi possivelmente já em 1793, porém 2° quanto à publicação.
Inicialmente rejeitado pelo maior editor de Londres da época, Thomas Cadell, ao qual a autora pessoalmente oferecera o seu trabalho, depois de sua 1ª. edição pela Editora Egerton, edição feita com uma boa tiragem de exemplares, o romance conquista grande sucesso. Desde então, a fama de romancista maior conquistada por Jane Austen nasce principalmente de seus leitores cultos, em particular da parte de escritores. Tudo isso é de imediato reconhecido quando a autora finalmente vê também tomado em consideração a sua primeira obra publicada, o romance Sense and sensibilty (Senso e sensibilidade), de 1811. Esses reconhecimentos aumentam ainda mais, logo em seguida, com as edições de Mansfield Park, de 1814; Emma, de 1816; e dos póstumos, ambos entregues ao público em 1817: Northanger Abbey e daquela outra obra-prima austeniana que é Persuasion (Persuasão).
A publicação de Orgulho e preconceito revela uma escritora romântica, de raízes setecentistas, que projeta em suas páginas uma escritura que alarga em forma excepcional o romance do Romantismo, ao mesmo tempo que antecipa a linguagem de obras do gênero criadas em tempos muito posteriores.
O romance de Jane Austen se apresenta de imediato como revelação de um universo pessoal de grande amplidão, no qual uma humanidade plúrima se manifesta. Os personagens da romancista inglesa são ao mesmo tempo complexos e simples, facilmente identificáveis. Neles transcorrem todas as possíveis gamas da sensibilidade humana, num complexo de aparentes paradoxos, sem tentativas de esconder quanto de incorreto possa coexistir com o correto, de bem com o mal. Assim percorremos as peripécias vividas, percebidas e expressas por Elizabeth Bennet, protagonista narradora da obra-prima austeniana, somente na aparência o puro centro do especial universo ali narrado. Ela é um grande personagem, não mais simplesmente romântico, mas a tradução intuída de quanto o século XIX conquistará definitivamente no empenho dos indivíduos de conhecer em profundidade a própria existência. Através de Elizabeth o leitor participa de sua posição de mulher inglesa de sua época que não lhe concede o direito de herança material direta dos bens familiares, ou que igualmente a obriga a matrimônios não sempre em coincidência com os sentimentos realmente vividos. Elizabeth se confronta com tudo isso, quando se vê quase constrangida a ceder às pretensões matrimoniais de um homem para o qual sente somente desprezo, como acontece para com o rico primo, o reverendo William Collins.
Maz, Elizabett sabe sempre reagir. Quase o mesmo acontece, ainda que em outro sentido, com o sempre atraente Darcy, por ela estimado em silêncio e por vezes desejado, mas que logo vem colocado criticamente de lado pela sua frivolidade aparentemente sem fim. Elizabeth é capaz de grandes reações e de vigillante consciência da realidade de sua existência: “Orgulho-me de não colocar jamais em ridículo quanto exista de bom e de sábio”. Porém, tambem afirma: “Verdadeiramente, loucuras e tolices, caprichos e incoerências me divertem, reconheço, e de tudo isso rio sempre que se me apresenta uma ocasião.”
Pelas suas origens familiares, a romanciesta inglesa apresenta no seu romance um
tomada de consciência do significado mais amplo dos bens materiais na existência da mulher de sua época. Uma das últimas filhas, num infindável grupo de irmãs, sem a presença de uma só descendência masculina, num grupo famíliar munido de bons recrursos econômicos, porèem com um pai incapaz de relacionamento sereno com suas muitas filhas e de uma figura materna sempre presa a uma comunicação de pesada vulgaridade e de constantes provas de uma pessoal má-educação, Jane Austen logo demonstra uma consciência profunda das razões econômicas para as mulheres ingleses do início do século XIX., até mesmo quando considera as experiências amorosas das mesmas. Nesse sentido, muito expressivas são as palavras com que se comunica numa carta a uma sobrinha (ela tinha muitos sobrinhos e sobrinhas, vindos de suas dezoiito irmãs, e a eles endereça muitas cartas), no caso a sobrinha Fanny: “As mulheres sós têm uma espantosa tendência à pobreza – fortíssimo argumento em favor do matrimônio.”
Todo esse complexo universo humano Jane Austen o recria nos seus romances através de uma linguagem revolucionária. Trata-se de um pessoal sistema de escritura artística que conduz o Romantismo a mais uma vez demonstrar-se como fonte de todas as inovações que os movimentos vanguardistas vindos desde o final do século XIX e penetrado no século XX souberam criar para a modernidade novecentista; por isso mesmo o Romantismo pode ser dito a primeira vanguarda da história literária em geral.
Por todas essas razões, podemos ver na autora de Orgulho e preconceitor aquela
linguagem revolucionária que nasce do encontro entre Impressionismo literário e Simbolismo, o mesmo encontro que gerou sistemas de escrituras como o de Marcel Proust.
E ainda poror todas essas razões, o criador do romantismo inglês, Walter Scott, poude escrever em 1826, no seu Diário, sobre a arte de Jane Austen: “Ela tinha um estrepitoso talento no descrever sentimentos e pessoas da vida quotidiana, era a melhor.“

Estimado Prof. Silvio Castro,
Tomo a liberdade de entrar em contato, pois gostaria, se possível, de realizar uma entrevista com o senhor. Como não possuo seu endereço eletrônico, resolvi enviar este comentário. Fico muito agradecido se puder entrar em contato consigo.
Com meus cumprimentos e agradecimentos,
Adriano Gomes Filho – afilho@pobox.com