Felicidade aqui e agora
Reencontro as setas amarelas na Rua de D. Afonso Henriques. Cerca de um quilómetro mais adiante atravesso a estrada e entro numa pista de terra no momento em que dois ciclistas seguem na mesma direção – sem me lançarem um olhar. Notei isto mais de uma vez no Caminho de Santiago… Em situações de extrema transgressão do ponto de vista de quem olha para mim: os observadores fingem que não me veem. Como se o meu comportamento os deixasse envergonhados ou embaraçados… São gente honesta, são gente decente, por isso têm medo ou vergonha por mim, que não respeito, do ponto de vista deles, as regras da conveniência.
Lembro-me de ter passado em outubro de 2011 já com sede, já a fazer cálculos quanto às hipóteses de pedir a alguém que me enchesse as três garrafas, mas não encontrei vivalma daqui até Vila Nova da Barquinha… Agora levo apenas uma e interrogo-me se não devo aliás despejá-la pois, o mais tardar, na Atalaia, há uma fonte… Hoje não transpiro. E trago cinco laranjas.
O nevoeiro continua denso. Não vejo a dois metros de distância, vou contudo seguindo as setas amarelas. Já por aqui passei e tenho boa memória mas não convém desorientar-me nestes farrapos de névoa… Importa aliás apressar-me pois é meio-dia e restam quase trinta quilómetros para percorrer até às seis horas. Não posso chegar de noite à entrada de Tomar que – sei-o tão bem – será a parte mais rude da caminhada.
Como uma laranja. Como um pedaço de chocolate (prenda de um amigo). Caminho no interior de uma nuvem, este algodão denso e esfiapado dá uma aparência muito bonita a tudo o que consigo ou não distinguir. Uma paisagem verde e cinza; terras que ainda não começaram a ser lavradas. Os pássaros temem muito menos o frio do que os humanos… Sou acompanhada por um chilreio alegre, sonoro e, a certa altura, ainda na estrada de terra, tenho à esquerda uma longa silveira da qual, à medida que avanço, durante cinquenta, oitenta, cem metros, se levantam bandos de pássaros, que na neblina quase não vejo, mas cujo voo vou ouvindo… O som musical de um instrumento pouco comum. (O voo dos anjos no Paraíso soaria assim?)
Trago uma mochila – com três quilos – que não me pesa. Não me doem as costas, não me doem os pés, não tenho sede, nem fome, nem frio, nem calor. Sinto-me livre. Sinto-me viva neste prazer do movimento, dos sons e odores que me rodeiam aqui e agora. Um prolongado momento de felicidade.
