A CORRUPÇÃO NA ORIGEM DA CRISE – 6 – por António J. Augusto

(Continuação)

SAÚDE (PPP)

Tem sido uma loucura de vigarices, embora nestes casos o Estado tenha que ter mais cuidado, em comparação com as PPP rodoviárias, pois os doentes podem ser afectados por eventuais chantagens dos concessionários.

ÁGUA (PPP)

São PPP a nível autárquico, em que se garantiram todos os lucros aos privados e todos os eventuais prejuízos aos consumidores, com o aumento do preço da água a disparar, de forma completamente arbitrária, dependendo da capacidade negocial que cada autarquia tenha.

MÁFIAS VERSUS DEMOCRACIA

Porque é que a máfia nasceu e cresceu na Sicília e porque é que na Grécia há um culto ao não pagamento de impostos?

Estes dois países têm em comum o facto de durante séculos terem sido dominados por potências estrangeiras.

A Grécia, na antiguidade, foi dominada pelo Império Romano, depois pelo Império Bizantino, a seguir pelo Império Otomano, em 1840 instalou-se uma dinastia alemã/dinamarquesa que governou até aos anos 1960 a que se segue a ditadura dos coronéis.

Até à queda desta ditadura os gregos nunca se reviram nos seus governos. Pagar impostos era pagar a pessoas que não os representavam.

Ironicamente, os guerrilheiros gregos que iam assaltar os otomanos chamavam-se kleptos, nome por que ainda são conhecidos os guardas que nos dias de hoje estão colocados na entrada do Parlamento grego. Tal fenómeno passou-se na Sicília.

Foi governada sucessivamente pelos romanos, normandos, árabes, Bourbons espanhóis, Bourbons ingleses e finalmente pelos Saboias que se sentiam mais franceses que italianos.

Durante toda a sua história os governantes foram estrangeiros, o que deu origem ao aparecimento da máfia como grupo de resistência contra os sucessivos governos. Passou a existir um Estado dentro de outro Estado, pois as pessoas mais depressa se identificavam com a máfia do que com o Estado institucional.

Repare-se que nos tempos actuais, em Portugal, a corrupção espalhou-se de tal maneira, a nível do poder, que as pessoas já começam a não se rever nos órgãos políticos, nomeadamente no governo. Nesta situação o Estado passa a ser um filão que é preciso assaltar antes que outros o façam em nosso lugar.

Assim, combater a corrupção é também defender a democracia, na medida em que os cidadãos, não se revendo nos seus governantes, podem lançar-se numa guerra civil larvar, onde ninguém confia rigorosamente em ninguém.

GRANDE CORRUPÇÃO/ PEQUENA CORRUPÇÃO

Existe uma grande correlação entre a grande corrupção e a pequena corrupção, favorecendo-se ambas mutuamente. Os mesmos portugueses que possam praticar a pequena corrupção, quando no estrangeiro, inseridos em organizações mais estruturadas e mais sérias, não a praticam e são apontados como exemplo. Logo, pode concluir-se que a grande corrupção é que origina a pequena corrupção, tese bem fundamentada nos velhos ditados portugueses “ou há moralidade, ou comem todos” e “o exemplo vem de cima”.

CONCLUSÕES

Não há quaisquer fundamentos para afirmar que a crise é devida ao facto de os portugueses terem vivido acima das suas possibilidades, afirmação essa que é feita para os fazer expiar esse “grande pecado” impondo-lhes o castigo da austeridade.

A principal causa para esta crise foi a corrupção e a especulação em todas as áreas.

Nem os portugueses andaram a viver acima das suas possibilidades, nem a austeridade é um caminho sem alternativa.

Um dos caminhos para se sair desta si-tuação passa pelo aparecimento de uma forte censura social às pessoas envolvidas em actos corruptos, pelo aumento da transparência das despesas das administrações públicas central e local, através do acesso fácil, para consulta, aos dados dos políticos e das organizaçõespela simplificação legislativa, por um melhor funcionamento da justiça e pelo cabal desempenho das funções do Presidente da República com vista ao regular funcionamento das instituições.

Existe uma correlação negativa forte entre corrupção e desenvolvimento: a corrupção cresce em sentido contrário ao do desenvolvimento. Esta conclusão é facilmente constatada ao compararem-se os mapas de desenvolvimento humano publicados pela ONU com as tabelas de percepção da corrupção editadas pela Transparency International.

Se Portugal aspira a algum desenvolvimento na próxima geração, só com o combate à corrupção será possível minimizar a actual crise que estamos a viver, pois se a corrupção é a principal causa dela, a única forma de evitar crises futuras é combater a corrupção

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