NOVAS VIAGENS NA MINHA TERRA – Série II – Capítulo 86 – por Manuela Degerine

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A Quinta da Cardiga

Maryvonne, uma das minhas amigas francesas, é sensível à estética da mancha. Encheu Sintra, tão arruinada, de exclamações… Maravilhava-se perante superfícies estragadas, isto para a maioria das pessoas, não para mim, certo, também atenta à passagem do tempo nos rostos como nos edifícios.

Tenho que a trazer aqui. Tenho – obrigatoriamente – que a trazer aqui. Com a hera, a erva, os musgos, os líquenes, as árvores nuas, o reboco estalado, a tinta cor de rosa no branco nas paredes, as ruas abandonadas, os casarões sem telhado, a Quinta da Cardiga é – nesta manhã de nevoeiro – uma aldeia fantasma. E uma maravilha. Um dos mais belos espaços que vi em toda a minha vida. Sofro o que poderíamos chamar um choque estético… Poiso a mochila. E acelero de um para outro lado com os olhos bem abertos. Muitas grades, muitos portões, através dos quais, por cima dos quais vejo pátios com erva, portais e janelas de pedra lavrada, paredes com camadas de cor em composição abstrata… A neblina diminuiu; começo a tirar fotografias. A torre. O palácio. O portal manuelino. O painel de azulejo. Os terraços. Os plátanos em tom de mostarda. As espirais barrocas à entrada de um pátio. Os musgos entre as pedras da calçada, os líquenes nos troncos das árvores… Vou e venho. Não consigo partir. (Sou uma moira, com diriam os portuenses: encantada neste lugar.)

Convém todavia apressar-me. Às seis horas é de noite, começará entretanto a chover e a chegada a Tomar é muito perigosa. Três fortes razões para me despachar. Passada a primeira curva, à beira de um campo, no sítio onde, há dois anos, um grupo preparava molhos de nabiças, vejo agora uma carrinha cheia de mulheres, talvez as mesmas, cada uma com a sua caixa de sopa e, mais adiante, outras quatro almoçam sentadas em cima de pedras.Imagem4

– Boa tarde!

– É servida?

– Não, obrigada. Bom proveito!

Bravas trabalhadoras. Uma coisa é caminhar com luvas nas mãos, outra é trabalhar pelos campos com esta temperatura e humidade… O frio, o calor, o esforço de quem produz não aparecem no preço do que comemos. Não é por acaso que aqui, em trabalhos tão difíceis e mal pagos, trabalham só mulheres… As mais exploradas entre os explorados.

Pouco depois, mais adiante, há uma casa, há lixo… Surgem dois cães. Não só ladram mas também mordem – se eu deixar. Agito o bordão à frente deles, que fogem mas voltam a atacar, um por detrás, o outro pela frente, eu vou girando, finjo que lhes bato, consigo, mesmo assim, ir avançando até que, por fim, as feras acabam por desistir. Quando me perguntam se não sinto medo de andar sozinha costumo sempre responder:

– Dos cães!

(Hoje não trouxe as rodelas de chouriço… Foi um erro.)

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