EDITORIAL: GATO POR LEBRE, CAVALO POR VACA. O LUCRO ESTÁ PRIMEIRO.

Diário de Bordo - II

 

O argonauta Júlio Marques Mota está a apresentar em A Viagem dos Argonauta, na secção Reflexões sobre a morte da zona euro, sobre os caminhos seguidos na europa a caminho dos anos 1930,  um texto analisando a extensão que atingiu o caso da lasanha elaborada com carne de cavalo no lugar de carne de vaca. E, ao lê-lo, percebemos a facilidade com que se propaga (o termo não estará mal aplicado) por toda a Europa uma situação destas. No referido texto, o Júlio Marques Mota dá-nos mesmo uma visão das reacções que o caso provocou, aos diferentes níveis.

Entretanto, o Público, na edição on line, numa notícia de ontem, informa-nos (em conjunto com a Lusa), que Dirk Niebel, ministro de Desenvolvimento alemão (o que fará ele?), terá sugerido que os produtos que estão a ser retirados do mercado por conterem vestígios de carne de cavalo sejam distribuídos aos pobres. Um deputado conservador ter-se-à mesmo deixado fotografar a comer um prato de lasanha de cavalo. Mas a ministra dos Assuntos Sociais, Ursula von der Leyen, classificou o debate como absurdo, e disse que todos, ricos ou pobres, querem saber aquilo que comem. Entretanto, uma empresa finlandesa, pediu autorização para entregar os produtos com carne de cavalo aos pobres.

Ursula von der Leyen tem razão no que diz. Aliás, tem muita razão, se o que quis dizer foi que todas as pessoas têm o direito a saberem o que comem. Mas qual será o sentido do debate que a ocorrer? há que perguntar. Será um branqueamento do ocorrido, que foi inegavelmente uma falsificação generalizada? Pois o que é grave, é que tudo indica que sim. Culpa das empresas, culpa dos governos, culpa do sistema capitalista, com a regra de o lucro em primeiro lugar? É de todos os que aceitam essa regra de ouro: o lucro em primeiro lugar.

1 Comment

  1. Meu caro João Machado

    Lemos a mesma notícia, Fiquei passado e por três razões e um comentário adicional:
    1. Primeiro nesta Europa dos neoliberais, a tal Europa dos consumidores soberanos, desde que tenham dinheiro, temos também os pobres e estes então não são consumidores soberanos. São pobres que podem e devem então comer o que o consumidor soberano não pode nem deve consumir e por isso esses produtos são-lhes retirados das prateleiras onde uns, os de dinheiro sonante os não encontrarão e os outros, os lisos, os tesos, nunca os comprarão porque como pobres devem então comer o que os outros não devem comer, os tais soberanos consumidores.
    2. O problema fica resolvido, o sistema reparte para outra e assim nada deverá ser posto em questão porque a magia da transformação de carne de cavalo em carne de vaca desaparecerá do imaginário do cidadão soberano ou pobre, ambos eleitores.
    3. Nada será pois posto em questão nem sequer os paraísos fiscais em que possivelmente assentariam o complexo de operações simples tecnicamente: a produção de lasanha. Três paraísos fiscais para isso, Luxemburgo, Chipre e Holanda. Possivelmente reorganizar-se a fileira com um ou outro encerramento e não se mexe mais no assunto. Os Estados membros devem confiar uns nos outros e a Irlanda essa, continuará a ser um paraíso fiscal até para os cavalos de boa cobrição. Bravo, senhor Durão Barroso, os cavalos, os lucros, primeiro, depois o resto, as pessoas digamos, é esta a sua imagem de Europa, é esta a imagem que talvez queira dar a Portugal se tudo correr como penso: virá candidatar-se a Presidente da República. Ou talvez não, se considerar que no fim do seu mandato achar que Portugal de nome país já nem isso merece ser, dada a pobreza a que as suas políticas o levaram. E assim talvez já agora nos comecem a dar muita lasanha, talvez.

    Comentário Final
    Vejamos a diferença dos tempos de agora e dos tempos em que eu era um menino pobre, no início dos anos 60 do século passado. Marçano, distribuidor ao domicílio de muita carga pelo meu lombo passada, fui granjeando amigos, muitos mesmo, meus clientes que às vezes a fome me abafavam. No extremo da pobreza, portanto. Um dia, um professor, morador na praceta ao fundo da rua Afonso Lopes Vieira, quis-me dar um fato, um fato de qualidade. E numa noite, sinceramente o conto, o professor pediu-me desculpa por me oferecer um fato e perguntava-me se eu estava disposto a recebê-lo. E perguntou-me se eu não ficava humilhado por essa oferta. Nesse tempo, os pobres eram tratados com dignidade, eram tratados assim. Mesmo que não deva generalizar, que não deva confundir a árvore com a floresta, no meu tempo de menino pobre, era assim, foi assim. Não é agora assim!
    Júlio Marques Mota

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