VERGÍLIO FERREIRA DISSE SOBRE VASCO DE CASTRO

Imagem1Nos quatro dias que faltam para abrirmos a nossa primeira EXPO-VIRTUAL, vamos falar sobre os cinco artistas, três pintores e dois fotógrafos que, entre 2 e 31 de Março aqui estão, sempre às 14 horas. Vamos também dar a palavra a quem sobre estes argonautas se pronunciou – Estes posts serão colocados em horários diferentes, de acordo com a disponibilidade do alinhamento.

Começamos bem – um texto de Vergílio Ferreira sobre Vasco de Castro. Diz assim:

 

Depois fui visitar a Galeria do Diário de Notícias porque esta lá uma exposição do Vasco com caricaturas (suaves) do Fernando Pessoa. A prosa de apresentação é minha. Dou-a aqui a quem a não conhece:

Uma homenagem ainda a Pessoa? Sim – mas. É de resto perturbante pensar que, após quase um século, nós não encontrámos ainda outra imagem de nós senão a que nos advém do grande poeta. É perturbante reflectir que não descubramos no nosso tempo uma contraproposta para as propostas da instauração do modernismo entre nós. Imagem3

Extremamente significativo é assim que não apenas nos deslumbremos com a geração modernista, não apenas a estudemos minuciosamente nos seus elementos mais representativos, mas que a nossa quase veneração chegue ao ponto de lhe reeditar as revistas em que se manifestou, desde o Orpheu ao Portugal Futurista, à Athena e outras, como se elas fossem realmente a expressão do que sentimos e pensamos hoje. Quase um século se passou como se nada mais se passasse. E estamos no sabido século da velocidade em que tudo se atropela da rapidez vertiginosa de tudo acontecer. Mas a razão de isto ser assim não é talvez obscura. Todo o surto cultural se tem processado pela substituição, pelo sim de uma proposta que sucede ao não de uma recusa.

A geração do Orpheu inicia entre nós esse vasto movimento de negatividade que alastrou por toda a parte em todos os domínios culturais. Mas é essa uma negatividade que nada veio render. Negar foi de resto sempre uma enorme sedução porque envolve uma infinidade de possibilidades de acerto, contra a possibilidade única do afirmar. Dizer mal é assim mais plausível do que dizer bem. Mas há ainda o heroísmo de quem se ergue contra o estabelecido que tem sempre a força da opinião comum.

E o poder de dizer mal é extremamente sedutor quando esse dizer triunfa. Daí o prazer com que muitos se investem dessa facilidade da negação transpondo-se imaginária e inconscientemente talvez ao tempo em que no começo do século se foi herói pelo combate e pela negatividade.

Esquecem-se, porém, esses de que não há hoje Dantas plausíveis para combater. Daí a sedução de se ser herói na pessoa dos modernistas de outrora, mas sem se correrem os riscos que eles correram e sobretudo com a certeza de que eles venceram, supondo-se portanto que se está hoje também do lado dos vencedores — e dos vencedores que sabemos do bom combate. Pois quantos dos que hoje os aplaudem estariam de facto ao lado deles, se tivessem vivido no seu tempo? Quantos não estariam ao lado do Dantas? Ou quantos não se saberá um dia que estiveram ao lado dos Dantas de hoje, disfarçados agora de modernistas? Assim o heroísmo de muitos é uma ficção que nem por isso deixa de lhes dar prazer na sua boa consciência. Como, porém, a realidade é mais forte, como o que os cerca não se lhes opõe, como se não pode já ser herói — sendo-o à custa dos de outrora, revertem-se ao tempo deles e aí se fixam, rodeados das revistas que não escreveram, do ideário que, sendo de ontem, é ainda o de hoje sem o ser. Daí que se viva num mundo imaginário, num mundo que seria bom fosse ainda o de agora, mas que só o é no gosto da negatividade sem já nada para se negar, porque já nada o merece.

E eis pois que assim Pessoa se tornou uma presença obsessiva no nosso mundo cultural, com a ajuda da repercussão que ele teve lá fora. Presença amada até à idolatria, ela começa mesmo a tornar-se saturante. A beleza é casta e revela-se quando muito no limite de se mostrar e ocultar. A poesia de Pessoa e todo o seu significado tem a grandeza que é impossível recusar-lhe. Mas é inevitável a pergunta sobre o que se lhe sucede, sobre o como, depois dele, teremos de ir vivendo culturalmente.

Nenhuma grande música se suporta, se executada indefinidamente. E é neste ponto-questão que se inserem os desenhos de Vasco, sem dúvida um dos maiores e incisivos comentadores pela imagem do nosso mundo político e cultural. Mas Vasco, como não podia deixar de ser, não pretende diminuir a grandeza de Pessoa. Apenas é seu intento intrometer na apoteose uma breve anotação de leve caricatura, digamos talvez de humanização Não se trata de nos dizer que «o rei vai nu», porque vestes reais na verdade o cobrem. Não se trata de nos dizer que «o ídolo tem pés de barro», porque na realidade os não tem. Trata-se apenas de uma pequena irreverência que justamente humaniza esse ídolo, de uma dessacralização que baixa um pouco o poeta até nós ou a nós nos dignifica para nos erguer um pouco até ele. Vasco não pratica bem a teratologia que rebaixe, mas só a que desorganiza o modelo na sua pompa. Trata-se de corromper um pouco os traços em que definitivamente julgámos organizá-lo. Uns olhos como botões ou corda de relógio, um chapéu que descai até ao desalinho, um certo tratamento em folhas de metal, um nariz que se prolonga até à anormalidade, um certo tratamento mesmo do célebre retrato do poeta por Almada e que é a matriz obrigatória da nossa habitual visão de Pessoa — são entre outros os motivos da audácia de Vasco. Mas a eficácia disso dá-a a segurança e inventiva deste excelente desenhador. Vasco define-se por uma destreza, uma rapidez de argúcia e imaginação que se nos sugere instantânea na flagrante realização do seu traço. Assim o que se nos insinua é uma improvisação que nada tem no entanto de impreciso, decerto porque, ao vermos estes desenhos, nós pensamos no seu trabalho diário para a Imprensa e na consequente capacidade para superar as hesitações e descobrir de imediato o sítio certo do seu traço definitivo. Pessoa obviamente não sai diminuído desta série de quase caricaturas, até porque a caricatura é a fatal representação pública de quem é célebre. Mas justamente é isso a forma redutora da celebridade e o modo de a reconduzirmos ao convívio de quem é mais vulgar.

Não sei pois se os desenhos de Vasco, recusando ao poeta a condição de ídolo, lhe não atenuam precisamente o risco da idolatria Pessoa será assim decerto mais nosso. Mas sem deixar de ser o grande poeta que é.

Vergílio Ferreira, in Conta-Corrente, 5 – 1985

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