FREI AGOSTINHO DA CRUZ
( 1540 – 1619 )
AO TRISTE ESTADO
Passa por este vale a primavera,
as aves cantam, plantas enverdecem,
as flores pelo campo aparecem,
o mais alto do louro abraça a hera.
Abranda o mar, menor tributo espera
dos rios, que mais brandamente decem,
os dias mais fermosos amanhecem,
não para mim, que sou quem dantes era.
Espanta-me o porvir, temo o passado,
a mágoa choro dum, doutro a lembrança,
sem ter já que esperar nem que perder.
Mal se pode mudar tão triste estado,
pois para bem não pode haver mudança,
e para maior mal não pode ser.

