POESIA AO AMANHECER – 147 – por Manuel Simões

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FREI AGOSTINHO DA CRUZ

( 1540 – 1619 )

AO TRISTE ESTADO

Passa por este vale a primavera,

as aves cantam, plantas enverdecem,

as flores pelo campo aparecem,

o mais alto do louro abraça a hera.

Abranda o mar, menor tributo espera

dos rios, que mais brandamente decem,

os dias mais fermosos amanhecem,

não para mim, que sou quem dantes era.

Espanta-me o porvir, temo o passado,

a mágoa choro dum, doutro a lembrança,

sem ter já que esperar nem que perder.

Mal se pode mudar tão triste estado,

pois para bem não pode haver mudança,

e para maior mal não pode ser.

Do poeta da Arrábida, este soneto retoma a comparação entre o ciclo da natureza e o da vida humana, ponto de meditação de numerosos textos quinhentistas. Aqui, porém, parece ser a ausência de mudança no “eu” poetante o que aponta como motivo de mágoa, como descrença numa saída do labirinto.

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