por Rui Oliveira
Na Terça-feira 5 de Março o acontecimento porventura mais interessante nas artes do espectáculo será a vinda ao Pequeno Auditório da Culturgest, às 21h30, do trio francês de jazz composto por Eve Risser piano, Benjamin Duboc contrabaixo e Edward Perraud bateria.
Diz deles Pedro Costa, comissário do ciclo “Isto é Jazz?” :
«A última década tem sido um desfilar de tentativas para repor o velho formato jazzístico que envolve piano, contrabaixo e bateria, ora no seguimento dos modelos antes instituídos, ora mutando-os em profundidade. Por vezes escapando mesmo ao enquadramento idiomático do jazz, para uma maior vivencialidade dos processos da improvisação colectiva. O trio constituído por Eve Risser, Benjamin Duboc e Edward Perraud coloca-se nesta última linhagem e, pelo que se ouve em “En Corps”, referido pela crítica especializada como uma das pérolas discográficas de 2012, acrescenta algumas intrigantes perspectivas de evolução.
Com a utilização de preparações e inspiração em John Cage, a pianista afasta-se do legado de Bill Evans, mas não o ignora. O lirismo proposto por este torna-se abstracto e integra-se numa abordagem orgânica marcada por jogos de tensão e distensão, exploratórios, interactivos e implicando uma total entrega física. Se a atitude é experimental, a pronunciada comunicabilidade do trio extravasa do palco para a audiência …
… Esta mesma música já não se constrói em pirâmide, com o piano no topo e os restantes instrumentos cumprindo funções de acompanhamento. Basta, de resto, atentar no modo como Risser surge onde menos se espera, fazendo o que não se julga que um piano pode fazer, e como Duboc se move nas construções erigidas a três. O contrabaixista é, aliás, o pilar deste edifício móvel. Por sua vez Perraud, ele que é um reconhecido ritmista, não tem apenas por papel atirar com células rítmicas para as tramas e mantê-las vivas. Mais do que alimentar a caldeira, o baterista comenta o que vai acontecendo. Ou seja, o futuro do “trio de piano jazz” passa por esta entusiasmante proposta…
Na impossibilidade de antecipar o conteúdo do álbum EnCorps, base provável deste concerto, mostramos-lhe uma improvisação deste trio no Festival de Paris de 2011:
Para conhecer melhor o trajecto anterior de Eve Risser, quem quiser ouça aqui uma longa peça improvisada com Claude Parle (acordeão) e Cyprien Busolini (violino) no club Angora (Paris) em Dezembro de 2010 : http://youtu.be/3wVzBQMAmso

Quanto a conferências/debate, na Terça-feira, 5 de Março, o Institut Français de Portugal propõe, por ocasião do tricentenário do nascimento de Denis Diderot (Langres, 1713 – Paris, 1784), um serão de entrada livre “Denis Diderot 1713-2013″ que permita compreender o percurso de um homem e a complexidade de uma obra.
O programa iniciar-se-á, às 17h, com uma Mesa Redonda “Diálogo com Diderot”, com intervenções de Maria João Brilhante (CET – FL da UL), João Luís Lisboa (CHC – FCSH da UNL) e Luís Manuel Bernardo (CHC – FCSH da UNL) e sugere-se como mote para debate esta declaração que Denis Diderot pôs na boca de uma das suas personagens : “Nós não estamos a fazer discursos, estamos a conversar”.
“Dessa conversa inacabada, − dizem os organizadores − cujos termos nos continuam a interpelar, para lá da distância temporal, gostaríamos de retomar algumas sequências, recriando as principais etapas de uma vida em diálogo com um tempo de mutações significativas que definiriam a nossa Modernidade e de uma produção que contribuiu decisivamente, nos mais variados campos «enciclopédicos», para firmar o sentido do projecto iluminista.
Às 19h haverá o lançamento do livro “Pensamentos Filosóficos” , seguido da projecção do filme “La boutique Infernale de Denis Diderot” (França, 1984), de Jérôme Prieur, realizado por Henry Colomer, Olivier Gillon e Philippe Le Guay.
Ainda quanto a cinema, duas notas adicionais.
Uma acrescenta ao anúncio que ontem fizémos de um novo ciclo “Grandes Prémios do Cinema Africano” que o Institut Français de Portugal programou para este mês de Março a iniciar-se às 19h de Segunda-feira 4 de Março, no seu Auditório, o seguinte dado : será nessa sessão projectada mais uma película intitulada “Les mille et une mains” (Marrocos, 1973), a primeira longa metragem de Souhel Ben Barka (foto) com Abdou Chaibane, Aicha El Ghazi e Mimsy Farmer nos principais papéis (Prémio Etalon de Yennenga, Fescapo 1973, Prémio George Sadoul, Paris 1973).
É um filme praticamente mudo, desse mutismo atrás do qual troa a revolta dos oprimidos.
Sinopse : Em Marraquexe, o velho tintureiro Molha e seu filho Miloud transportam pacotes de fios de lã… Assim começa a minuciosa tecelagem de tapetes vendidos no exterior e a labuta sofrida dos homens, mulheres e raparigas. As condições permanecem lamentáveis até que Moha é, um dia, vítima dum acidente de trabalho. O filho que o iria substituir recusa a situação que envolve toda a família e abandona a tinturaria mas fica desempregado. Entretanto o pai morre e o filho decide vingar-se daquele que ele considera responsável, esse grande exportador de tapetes que leva uma vida “à ocidental” …

Outra nota cinematográfica diz respeito ao ciclo de cinema que o Instituto Cervantes inicia com Ciclo peruano : El universo de Lombardi. Dentro dele a primeira película a ser exibida é “La ciudad y los perros” (Peru, 1985) de Francisco J. Lombardi (foto), com Alberto Isola, Gustavo Bueno, Luis Álvarez nos principais papéis.
Baseado na novela homónima de Mario Vargas Llosa, o filme desenvolve-se no colégio militar “Leoncio Prado” em Lima, a capital peruana, onde as condições de vida são duras. Quatro cadetes revoltados, para quebrar o confinamento e o tédio da caserna desencadeam uma sequência de acontecimentos que parte dum roubo e leva a um assassinato …
Se o leitor o quiser ver em versão integral tem-na aqui :
Por último, não o noticiámos na altura (Sexta 1 de Março) mas está em exibição até Quarta 5 de Março (com excepção de Terça) no palco da Sala Principal de Teatro Maria Matos (Domingo às 16h30, restantes dias às 10h) o espectáculo de dança que a luandense Marina Nabais apresentou em Guimarães, Capital Europeia da Cultura sob o título “O peso de uma semente”, com direcção artística, coreografia e interpretação da própria, cabendo a interpretação do prólogo aos alunos do 8.º ano da Escola de Dança do Conservatório Nacional.
A dramaturgia é de Manuela Pedroso, os cenários e figurinos de Marta Carreiras e a ilustração de Diogo de Calle.
Descrição explicativa : Se, numa balança, dois pesos se equilibram estagnando, o que os fará mover? O peso de uma semente. Ela encerra em si o potencial, a origem e a reprodução da vida. É o princípio de todo o movimento. Com a medida certa de esforço, esse peso ― medido em apenas miligramas ― recai sobre a terra e transforma-se em vida e conteúdo, ao longo do tempo. Precedido de um prólogo interpretado por um conjunto de jovens, este solo de dança parte da depuração do espaço do corpo, do espaço sonoro e do espaço cénico para explorar o paradoxo entre esforço e inércia.
(para as razões desta nova forma de Agenda ler aqui ; consultar a agenda de Domingo aqui )






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