ANOS ATRÁS – 1974 – por Carlos Leça da Veiga

Em 25 de Abril de 1974, vinte e um anos depois da Candidatura de 1953, às eleições para os Corpos Sociais da Associação Académica de Coimbra, havia de ter sentido, com prazer inenarrável, o gosto imenso, por tantos sentido, da vitória do Movimento das Forças Armadas (MFA) que, com arrojo e competência indiscutíveis, por fim, deu aos Portugueses o direito e a satisfação de viverem em Liberdade e de vivê-la decididamente, com os olhos postos na esperança de ver instituída a Democracia. Tantos anos passados, foi pela mão do MFA que haveria de conhecer-se a alegria transbordante e bem merecida duma justiça que tanto tardou em querer chegar à população portuguesa e, também, reconheça-se, a melhor satisfação que podia ser devida a todo o empenho, entusiasmo e compromisso político daqueles jovens universitários da Coimbra dos passados anos cinquenta.

Desde a tarde do dia 25 de Abril de 1974, uma vez reconhecida a vitória indubitável do MFA que, em Lisboa, no Hospital de Santa Maria, junto a um numeroso grupo de Colegas, comecei a desafiá-los para subscreverem um texto que, com toda a rapidez, tinha acabado de preparar para, por seu intermédio, fazer um apelo ao Pessoal hospitalar no sentido de reunir numa Assembleia que fosse demonstrativa do apreço sentido pelo acto revolucionário e, também, para poder dar-se início à Democracia num local de trabalho com, para isso, a realização duma Assembleia que assumisse a orientação, em moldes democráticos, da vida hospitalar.

Era meu propósito que todos os oposicionistas ao regime apeado, ao subscreverem o texto, dessem pública demonstração, nas suas modestas possibilidades, que estavam presentes, saudavam os vencedores e, sem mais delongas, afirmarem querer comparticipar activamente na Democracia nascente.

De imediato, com espanto, não foi nada fácil encontrar Colegas médicos decididos a facultar as suas assinaturas, coisa que só haveria de começar a conseguir três dias após as primeiras tentativas. Não percebi que quase todos os Colegas inicialmente contactados – todos conhecidos pelo seu reviralhismo impenitente – por mais evidentes que fossem os traços duma inquestionável vitória dos militares revoltados, continuavam à espera de receber autorização do centralismo para, por fim, aceitarem acreditar na bondade do Movimento das Forças Armadas. Já, nesse momento – azar nacional – deram a primeira mostra do que haveria de ser o comando estreito, limitado e sectário da política do futuro mais próximo. Por fim, no dia 27 daquele Abril histórico, num dos gabinetes da sede, em Lisboa, da Ordem dos Médicos – reaberta por nós, os Corpos Sociais demitidos pelo Marcelo Caetano – por meio de sucessivos telefonemas comecei a ter a promessa, aliás cumprida, de muitas assinaturas dentro as quais tenho o prazer de mencionar as dos Colegas Dr. Jorge Ruas da Silva e do Dr. Max Khorn que, ambos, de propósito, foram procura-me ás instalações da Ordem para darem a sua assinatura. Depois, no dia 28, seguiram-se algumas centenas, obtidas com a maior disponibilidade entre os Trabalhadores de todas as profissões, em serviço no Hospital de Santa Maria. O texto subscrito rezava:

Ao Pessoal do Hospital de Santa Maria –                                       29 de Abril de 1974

A População Portuguesa vive emocionada, consciente e democraticamente o acontecimento mais extraordinário e decisivo da sua História. Cônscios que à grandeza do momento é devida a palavra necessária, formula-se o mais vivo e sentido aplauso ao acto levado a cabo pelo Movimento das Forças Armadas Portuguesas. Saudamo-lo pela decisão, coragem e eficácia do seu levantamento, pela imediata e incondicional libertação dos presos políticos e, também, pelo arrojado ineditismo histórico de, ao abolir a constituição fascista, dar à Declaração Universal dos Direitos a mais alta projecção e aplicação na vida do Povo Português.

Derrubado meio século de ocupação, contamos e desejamos apoiar uma segura e total manutenção das condições necessárias para a instauração duma sociedade real e efectivamente Democrática construída, mantida e defendida pela força do Povo Português.

No momento presente, pela força dum movimento em marcha, estão asseguradas as liberdades fundamentais, anulados os tradicionais apoios de repressão directa e, claramente, negado todo o poder ilegítimo imposto pela ditadura derrubada.

Neste sentido e perfeitamente integrados no espírito e na acção das circunstâncias históricas que se vivem, cumpre dar-lhes imediata e efectiva realização. Assim, tendo em consideração prioritária a desarticulação inevitável de todas as estruturas de cúpula, propomos ao Pessoal do Hospital que se reúna em Assembleia-Geral, no dia 30 de Abril, pelas 12 horas, na Aula Magna.

A Assembleia-Geral, sendo o órgão de soberania, assume a completa responsabilidade de Direcção da vida hospitalar e deverá eleger a Comissão Provisória que prepare, por via democrática, a eleição de uma Comissão Directiva representativa e integrada por todos os sectores de Trabalho do Hospital.

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