As sílabas marginais/é preciso falar-se/Nelson Ferraz

é preciso falar-se sobre todas as coisas

a que não damos sequer um nome.

aquela espécie de angústia por exemplo

que o silêncio solitário do desamor

deixa nos ombros do peito e na cabeça do coração.

 

é preciso falar-se sobre algumas palavras

cheias de lâminas sem cor

que cortam sílaba a sílaba a tranquilidade da respiração.

 

é preciso falar-se de nós

quando caminhamos sós

pelos corredores compridos entre paredes de fumo

 

depois é muito provável

que cheguemos à conclusão inevitável

do fracasso que a incompreensão carrega

quando analisamos o pequeno ou grande erro

em que assenta o nosso rumo.

 

 

 

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