Seleção e revisão de Francisco Tavares
11 min de leitura
A ilusão da Venezuela
Limites da estratégia de “gestão de regime” pelos EUA no Irão
Publicado por
em 12 de Março de 2026 (original aqui)
À primeira vista, a lógica estratégica da ofensiva Estados Unidos–Israel contra o Irão parece difícil de identificar. Enquanto o presidente Trump enquadra a campanha no discurso da “libertação democrática”, prometendo derrubar a República Islâmica, o secretário de Estado Marco Rubio descreve-a como um ataque preventivo. O chefe do Pentágono, Pete Hegseth, juntou-se a Rubio ao afirmar que os objetivos centrais são a destruição dos programas nuclear e de mísseis do Irão e a degradação das suas capacidades navais: não exatamente uma mudança de regime, mas uma estratégia de coerção voltada para a redução das capacidades militares do país.
Os objetivos de guerra dos Estados Unidos, no entanto, não devem ser procurados nas declarações oficiais do governo Trump, mas nas transformações de longo prazo da estratégia estatal americana. Desde o início da década de 2010, Washington tem-se afastado cada vez mais de ocupações militares em larga escala, privilegiando o uso de poder aéreo, instrumentos financeiros, pressão diplomática e assassinatos ou remoções de adversários-chave. A meta tem sido impor a sua vontade a outros Estados enquanto limita os custos domésticos e geopolíticos associados a uma presença militar prolongada — uma espécie de engenharia política à distância.
O episódio da Venezuela marcou o ápice dessa abordagem, demonstrando como um ataque direcionado contra um líder específico, combinado com intensa pressão externa, pode produzir mudança política sem os custos do controle territorial. Ao que tudo indica, é esse mesmo roteiro que Washington gostaria de seguir no Irão. Trump invocou explicitamente o precedente venezuelano quando, após ordenar o assassinato de Ali Khamenei, declarou que o filho do aiatolá, Mojtaba Khamenei, seria um sucessor “inaceitável”: “Preciso ter voz na escolha, como aconteceu no caso de Delcy.”
Mas Washington tem, de facto, capacidade de impor o seu líder preferido ao Irão, como anuncia ter feito após a captura de Maduro? As evidências sugerem que não. A República Islâmica possui uma arquitetura de poder complexa e uma coligação governante relativamente coesa. Ao longo de mais de três décadas, Ali Khamenei transformou o Gabinete do Líder Supremo num vasto aparato burocrático e de segurança, inserido numa densa rede de instituições militares, clericais e económicas. Esse “complexo militar-bonyad” [1], como o defini anteriormente, não pode ser derrotado por uma estratégia de simples decapitação. O resultado mais provável da campanha Estados Unidos–Israel será reforçar a coesão do aparato de segurança do Estado iraniano, ao mesmo tempo em que desencadeia um conflito mais amplo na região.
Gestão de regime
A atual abordagem dos Estados Unidos em relação ao Irão tem raízes profundas. A instabilidade financeira provocada pela crise de 2008, somada ao crescente cansaço doméstico com as ocupações do Iraque e do Afeganistão e à intensificação da competição com a China, levou a uma reorientação da estratégia imperial. Em vez de custosas tentativas de mudança de regime e engenharia estatal, Washington passou a buscar maior influência sobre instituições já existentes em outros países, ao mesmo tempo em que preservava margem de manobra para um confronto entre grandes potências de longo prazo na Eurásia e no Indo-Pacífico.
O bombardeamento da NATO contra a Líbia em 2011, que procurava remover Muammar Gaddafi do poder e resultou na morte de cerca de 50 mil líbios, sinalizou essa nova orientação. Mesmo enquanto os estadistas americanos continuavam a mobilizar o discurso da democracia e do humanitarismo, os seus projetos de transformação política abrangente deram lugar a um reportório mais restrito de política externa: estabilização, contraterrorismo, gestão de alianças e proteção de corredores energéticos. Trump deu continuidade a essa herança, embora tenha, em grande medida, abandonado a linguagem da democracia e da ordem internacional baseada em regras que constituía a gramática moral do poder americano.
Um dos pilares dessa viragem pós-2008 foi a expansão da guerra financeira e comercial como substituto das intervenções militares terrestres. As sanções deixaram de ser um instrumento marginal de política externa para se tornarem um mecanismo central de reorganização da inserção internacional de um Estado-alvo e de compressão da sua economia política doméstica. O seu objetivo é sistémico, e não tático: restringir o acesso a financiamento, redes de abastecimento, serviços de seguro, rotas de transporte e sistemas de liquidação financeira, forçando terceiros a escolher entre participar na ordem centrada nos Estados Unidos ou manter vínculos comerciais com o país sancionado.
As sanções económicas foram uma das principais armas do governo Obama, posteriormente reforçadas pelas tarifas de Trump: um instrumento contundente para generalizar fricções económicas, elevar custos de transação e disciplinar cadeias de abastecimento, frequentemente operando em conjunto com controles de exportação, mecanismos de triagem de investimentos e restrições financeiras. Essa combinação de sanções e tarifas fortaleceu a infraestrutura da coerção económica, não necessariamente por permitir a Washington produzir resultados políticos específicos, mas por ampliar o leque de instrumentos à sua disposição para punir, dissuadir ou compelir determinados comportamentos.
Um segundo pilar consiste em transferir parte da responsabilidade pela coerção externa para Estados aliados, incentivando-os a absorver maiores custos na linha de frente, enquanto os Estados Unidos fornecem o guarda-chuva de escalada, inteligência, logística e capacidades militares de alto nível. A NATO é o exemplo mais claro. A viragem estratégica pós-2008 foi acompanhada por uma pressão americana constante sobre os parceiros europeus para elevar os gastos com defesa como proporção do PIB. Trata-se menos de uma exigência pontual do que de um sinal estrutural de que os compromissos americanos se tornaram cada vez mais condicionais à partilha do fardo por parte dos aliados. Também aqui há mais continuidade do que ruptura entre Obama e Trump, ainda que Trump costume expressar a mesma lógica em termos mais ásperos.
Essa reorientação vai além da Europa. Washington busca preservar a sua primazia estratégica ao mesmo tempo em que redistribui responsabilidades operacionais para fora e para baixo, o que lhe permite exercer coerção com maior liberdade sem se envolver em campanhas abertas e prolongadas de estabilização. Nesse sentido, a ideia de “liderar nos bastidores” deixa de ser apenas um recurso retórico e passa a funcionar como uma necessidade operacional. No Médio Oriente, os Estados Unidos passaram a última década incentivando aliados regionais a policiar o seu próprio entorno de maneira alinhada com os interesses americanos. Isso ficou particularmente evidente após a Primavera Árabe, quando o bloco do Golfo liderado pela Arábia Saudita ajudou a suprimir ou neutralizar levantamentos populares e a consolidar uma ordem regional compatível tanto com as prioridades do Golfo como com as de Washington. Essa redistribuição de responsabilidades também ampliou a margem de manobra de Israel, já que o respaldo americano às ações israelitas, especialmente desde o 7 de outubro [de 2023], manteve-se amplamente consistente tanto no governo Biden como no de Trump.
Nesse contexto, a estratégia de “gestão de regime” apresenta-se como uma solução atraente para um dilema estratégico recorrente: Washington já não consegue garantir os resultados desejados — conformidade, realinhamento ou neutralização de regimes hostis — por meio de guerras em grande escala dirigidas para a mudança de regime. Esse modelo foi aplicado, na Venezuela e em outros casos, para tentar produzir uma configuração política mais favorável dentro do Estado-alvo, preservando ao mesmo tempo a sua máquina administrativa existente: remove-se o vértice do poder, mantém-se intacta a burocracia e, em seguida, mobilizam-se alívio de sanções, maior acesso a ativos e mercados e reconhecimento diplomático para disciplinar a nova elite governante rumo a um acordo.
O Estado dentro do Estado
As características específicas da economia política iraniana representam um problema fundamental para essa estratégia. Desde que assumiu o cargo em 1989, Ali Khamenei institucionalizou de forma sistemática o Gabinete do Líder Supremo. Khamenei nunca teve o carisma do seu predecessor, o aiatolá Khomeini, e a sua posição clerical era mais contestada. A sua resposta foi transformar o Gabinete no verdadeiro centro de comando do regime: um denso complexo burocrático com capacidades paralelas nas esferas da administração, da política, das finanças, das comunicações, da segurança, da cultura e dos seminários religiosos. O que antes era um modesto secretariado de coordenação, com cerca de vinte funcionários, evoluiu, sob Khamenei, para um Estado dentro do Estado: um aparato paralelo composto por milhares de pessoas, dotado de vasto alcance extralegal e capaz de frequentemente sobrepor-se ou marginalizar os poderes eleitos. O objetivo dessa institucionalização era garantir que o sistema pudesse funcionar sem depender da autoridade pessoal do Líder Supremo como um único homem forte.
Consequentemente, o Gabinete do Líder Supremo não é um órgão que se situa para além da política, como um árbitro neutro. A sua expansão institucional ocorreu em paralelo com uma reconfiguração mais profunda do bloco governante a partir do início dos anos 1990, culminando na ascensão do chamado complexo militar-bonyad. Por meio das suas nomeações em instituições não eleitas e da sua supervisão do aparato coercivo, de fundações-chave e de setores económicos estratégicos, o Gabinete passou a funcionar cada vez mais como a expressão institucional dos interesses dessa coligação. Em outras palavras, o vértice do regime não é apenas uma pessoa, mas um nexo de poder que reproduz uma configuração específica de autoridade.
O surgimento desse bloco não foi automático nem incontestado. Ele tomou forma por meio de disputas intra-elites que se seguiram à viragem neoliberal do início dos anos 1990. Durante as presidências de Rafsanjani e Khatami (1989–2005), ganhou destaque no Irão uma corrente tecnocrática orientada para o Ocidente, que defendia privatização, desregulamentação e reintegração aos mercados globais como caminho para a reconstrução pós-guerra. Na prática, essas políticas criaram um universo de empresas semiprivadas: poder e riqueza crescentes passaram a fluir para entidades tais como afiliadas de bancos, fundos de pensões e organizações paraestatais que eram formalmente privadas, mas mantinham fortes vínculos com ministérios e elites políticas. Nesse contexto, uma nova camada de burocratas de perfil comercial e de gestores politicamente conectados ganhou maior influência. Eles promoviam uma política externa baseada na distensão com a Europa e, eventualmente, com os Estados Unidos, na esperança de garantir fluxos de capital, transferência de tecnologia e acesso aos mercados globais.
Esse projeto, porém, mostrou-se frágil. A eleição de Mahmoud Ahmadinejad como presidente em 2005 marcou a ascensão de um modo diferente de formação neoliberal do Estado. Ahmadinejad promoveu uma ampla transferência de ativos estatais para redes ligadas à Guarda Revolucionária Islâmica e grandes fundações revolucionárias, como a Fundação Mostazafan, a Execução da Ordem do Imame Khomeini (Setad) e a Fundação do Santuário do Imame Reza. Essas instituições foram transformadas em conglomerados extensos que combinavam atividades orientadas para o lucro com a retórica do desenvolvimento nacional e de missões caritativas. Embora a privatização tenha continuado em ritmo acelerado, os seus beneficiários passaram a estar cada vez mais inseridos no aparato de segurança do Estado.
No final dos anos 2000, essa reestruturação havia produzido uma nova fração dominante da classe dirigente. Politicamente representado pelo movimento principialista, o complexo militar-bonyad ancorava-se na lealdade absoluta ao Líder Supremo, numa nova orientação estratégica voltada para China e Rússia e na resistência à integração com o capital ocidental. Essa coligação passou a operar não apenas como um bloco económico, mas como uma verdadeira arquitetura de governo. As suas instituições constitutivas — o Gabinete do Líder Supremo, a Guarda Revolucionária Islâmica e órgãos de segurança a ela associados, as principais fundações revolucionárias, o Judiciário e o Conselho dos Guardiões — estão protegidas de qualquer forma de responsabilização eleitoral. As suas lideranças são reproduzidas por cadeias de nomeações sob a autoridade final do Líder Supremo, enquanto o poder de supervisão do Conselho dos Guardiões abrange tanto a legislação como a elegibilidade de candidatos para instituições cujo comando é definido pelo voto, como a Presidência e o Parlamento. O poder dentro desse sistema repousa na fusão entre capacidade coerciva e controle económico, incluindo acesso privilegiado a recursos estatais, mecanismos opacos de transferência, monopólios de contratação e canais de evasão de sanções que convertem a crise em fonte de rendas políticas. Nessas circunstâncias, a pressão externa e as sanções impostas pelo Ocidente frequentemente produzem efeitos paradoxais, reforçando, em vez de enfraquecer, as estruturas que pretendem atingir.
Exércitos paralelos
Em vez de um único exército cujos membros poderiam eventualmente desertar, o Irão possui uma arquitetura coerciva muito mais complexa: um sistema em camadas de forças paralelas, órgãos de inteligência sobrepostos e estruturas de comando diferenciadas, concebido para proteger o regime tanto contra ataques externos como contra tentativas internas de golpe. A estratégia americana de remover o vértice do poder e reorientar a burocracia, portanto, torna-se inaplicável. O Irão opera forças armadas paralelas com missões distintas. Ao lado do exército regular (artesh), a Guarda Revolucionária Islâmica não se dedica apenas à defesa territorial, mas também à salvaguarda da própria ordem política. A Guarda controla ainda as principais capacidades de dissuasão do regime — mísseis, drones e elementos centrais da defesa estratégica do espaço aéreo — situando-se no centro dos cálculos de sobrevivência do Estado. Esse arranjo de dupla estrutura militar não é um acidente histórico, mas uma tentativa deliberada de tornar o Estado à prova de golpes. O paralelismo institucional pode gerar redundâncias, mas também produz constrangimentos mútuos: nenhuma estrutura de comando isolada dispõe da autoridade necessária para converter o aparato coercivo da lealdade à deserção.
Nem mesmo a Guarda, contudo, é um ator unificado. Trata-se antes de uma federação de centros de poder semiautónomos, que incluem a Força Aeroespacial, as Forças Terrestres, a Marinha, a Força Quds, a Basij, além de diversas unidades de inteligência e segurança, cada uma com o seu próprio mandato operacional, hierarquia interna e interesses institucionais. Essa fragmentação eleva os custos de coordenação de qualquer tentativa de deserção coletiva. Quando conflitos intra-elite ocorrem, é mais provável que assumam a forma de negociações de alto nível, barganhas, redistribuição de poderes institucionais e reordenação de prioridades internas em vez de rupturas organizacionais. A Guarda possui complexos vínculos de lealdade vertical e mecanismos de coordenação horizontal que tornam extremamente arriscado para qualquer uma das suas facções internas desafiar a estrutura de poder ou agir de maneira unilateral.
O aparato de segurança iraniano também opera por meio de duplicação institucional e sobreposição de jurisdições. A Organização de Inteligência da Guarda atua paralelamente ao Ministério da Inteligência, enquanto outros órgãos ligados à Guarda, como a Organização de Proteção da Inteligência, a Unidade de Proteção Ansar-al-Mahdi, a Organização de Proteção da Aviação e o Comando de Defesa Cibernética, supervisionam atividades de monitoramento interno e contrainteligência. Crucialmente, a nomeação e supervisão das lideranças passam pelo Gabinete do Líder Supremo. O que à primeira vista poderia parecer uma burocracia caótica é, na verdade, uma técnica deliberada de governo. A sobreposição institucional pode produzir rivalidades políticas, mas também garante a vigilância dos vigilantes: uma estrutura que dificulta a coordenação conspiratória, eleva a probabilidade de detecção e desestimula ações coletivas fora dos canais autorizados.
No plano operacional, os arranjos de comando e controle do Irão constituem outro obstáculo aos objetivos de Washington. Os métodos de coordenação entre as diferentes forças são concebidos para garantir continuidade mesmo quando a estrutura é alvo de ataques, por meio de centros de comando dispersos e da preservação da capacidade de retaliação. Mesmo que o adversário consiga decapitar ou degradar partes do aparato, isso de modo algum garante um colapso organizacional. O sistema é construído de tal forma que nenhum dos seus componentes isoladamente tem autoridade para render o conjunto, o que o torna particularmente resiliente a choques.
Essas características estruturais moldam os incentivos das elites em contextos de conflito. Quando as pressões externas se intensificam, os atores políticos iranianos tendem naturalmente a proteger a coligação governante — e o sistema que garante sua autoridade, riqueza e segurança — em vez de desertar dela. Desentendimentos internos costumam manifestar-se por meio de negociações sucessórias e acordos entre facções, e não pela capitulação de qualquer bloco específico diante dos Estados Unidos. O paradoxo, portanto, é que quanto mais o governo Trump tenta remodelar a estrutura de poder iraniana, mais coesa ela tende a tornar-se. A sobrevivência passa a ser o princípio organizador do sistema. O seu aparato coercivo — não uma hierarquia militar convencional, mas uma arquitetura concebida para proteger o regime e precisamente para resistir a esse tipo de ameaça — torna qualquer repetição do cenário venezuelano extremamente improvável.
Custos de exportação
O Irão difere da Venezuela em outro aspecto decisivo. Há muito, a doutrina de dissuasão do país baseia-se na premissa de que qualquer grande confronto não ficará restrito ao território iraniano. Isso não significa que Teerão seja suficientemente poderosa para ditar o curso da escalada. Ainda assim, as capacidades estratégicas da República Islâmica conferem-lhe a habilidade de impor custos amplos e prolongados em todo o Golfo e o Levante.
Essa capacidade é o resultado cumulativo de mais de duas décadas de projeção de poder regional, que remontam a 2003. A invasão americana do Iraque rompeu o equilíbrio regional e abriu oportunidades para que o Irão ampliasse a sua influência por meio de partidos aliados, milícias e redes armadas. Com o tempo, essas relações consolidaram-se no que passou a ser conhecido como Eixo da Resistência: uma coligação relativamente flexível de atores estatais e não estatais capaz de ativar múltiplas frentes e complicar o planeamento operacional dos seus adversários.
Desde 2023, essa rede vem sofrendo pressão constante. Operações israelitas contra forças alinhadas com o Irão em diferentes partes da região, combinadas com o colapso do governo Assad na Síria, degradaram partes do Eixo e reduziram a sua capacidade logística. Ainda assim, ele não foi completamente eliminado. A sua infraestrutura de parcerias, grupos armados e vínculos políticos permanece parcialmente intacta, o que significa que as perspectivas estratégicas do Irão não dependem de um único confronto decisivo. Em vez disso, Teerão mantém a capacidade de exercer pressão simultaneamente em múltiplas frentes.
O arsenal de mísseis e drones constitui o segundo pilar dessa estratégia. A postura de dissuasão iraniana foi construída em torno de habilidades de ataque à distância (stand-off): a capacidade de atingir bases americanas em todo o Golfo e na região mais ampla, ameaçar Israel e colocar infraestruturas de aliados em risco sem precisar de igualar o poder aéreo ocidental equipamento por equipamento. Na doutrina iraniana, esses sistemas não são ativos auxiliares, mas instrumentos compensatórios, concebidos para compensar a inferioridade convencional e impor custos a qualquer adversário que considere conduzir operações aéreas prolongadas. Isso tem implicações diretas para o modelo de intervenção que foi utilizado na Venezuela, pois enfraquece a suposição de que a escalada pode ser contida de forma controlada. Uma campanha destinada a decapitar a liderança e degradar o aparato coercivo por meio de ataques aéreos pode, ao contrário, ativar a lógica de retaliação que pretende evitar: ataques regionais calibrados, mobilização de redes parceiras e um teatro de conflito em expansão, no qual a capacidade política daquele que intimida pela força de dirigir os acontecimentos se deteriora mais rapidamente do que a sua capacidade de destruir alvos.
Um terceiro instrumento é geoeconómico, centrado na capacidade histórica de Teerão de ameaçar o mercado global de energia por meio de gargalos marítimos. O Estreito de Ormuz ocupa aqui uma posição crucial. Como passagem estreita que conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Oceano Índico, ele funciona como a principal via marítima de exportação para os produtores de petróleo do Golfo e como corredor para uma parcela significativa dos fluxos energéticos globais. Segundo a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA), cerca de 20 milhões de barris de petróleo por dia atravessaram o estreito em 2024, o equivalente a aproximadamente um quinto do consumo mundial de líquidos de petróleo. Isso faz de Ormuz o gargalo petrolífero mais importante do mundo. Mesmo uma interrupção parcial pode elevar os preços, pressionar os mercados de seguros e transporte marítimo e transmitir pressões inflacionárias para a Ásia e a Europa. Essas externalidades económicas mais amplas conferem ao Irão um tipo de alavancagem sistémica que a Venezuela não possuía.
Disputa prolongada
Embora esses instrumentos não garantam um resultado estratégico favorável ao Irão, eles oferecem-lhe múltiplos caminhos para elevar o custo de uma coerção prolongada e ampliar o círculo de atores que sofrem as suas consequências. A República Islâmica, em suma, não é a Venezuela. Trata-se de um sistema institucionalizado, construído para absorver choques, administrar sucessões e resistir à pressão externa. A decapitação não dissolve essa arquitetura, antes a ativa.
Para Washington, a vantagem da estratégia de “gestão de regime” é evidente: ela promete transformação política sem os custos da reconstrução estatal. No entanto, as mesmas condições que explicam o seu apelo também revelam a sua fragilidade. A coligação governante do Irão, a sua estrutura de segurança e a sua capacidade de exportar custos garantem que os Estados Unidos terão dificuldade tanto para conter a escalada como para determinar os seus desdobramentos políticos. A tentativa de Washington de produzir uma transição controlada pode, assim, transformar-se em algo completamente diferente: uma disputa prolongada que gera instabilidade crescente em vez de rápida submissão. A escolha de Mojtaba Khamenei como novo Líder Supremo ilustra esse ponto: o sistema ainda não foi rompido. Pelo contrário, ele reproduziu-se.
___________
[1] N.T. Bonyad: fundo fiduciário de caridade e conglomerado económico no Irão.
Kayhan Valadbaygi é um académico e investigador iraniano. É o fundador e CEO da Middle East Risk & Reform Advisory. É especialista em Relações Internacionais com quase uma década de experiência em investigação, ensino e consultoria. É Doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Nottingham (Reino Unido) e lecionou e pesquisou em instituições líderes, nomeadamente a Universidade de Leiden, nos Países Baixos, a Universidade de Nottingham e a Universidade Nottingham Trent, no Reino Unido. A sua experiência abrange Política interna e política externa do Irão, Geopolítica do Médio Oriente e estratégias regionais de risco geopolítico, Desenvolvimento económico e economia política do Médio Oriente.
Publicou extensivamente, incluindo a monografia Capitalism in Contemporary Iran (Manchester University Press, 2024) e numerosos artigos revisados por pares. Ele também contribuiu com pesquisas e comentários relevantes para as políticas para grupos de reflexão, ONGs e meios de comunicação.
Livros: Capitalism in Contemporary Iran: Capital Accumulation, State Formation and Geopolitics (Manchester University Press, paperback 2026). Para comentários e análises recentes deste autor ver aqui.



