Pepe Carvalho, aluno de Sam Spade e de Philip Marlowe – por Carlos Loures

A propósito da série “Aventuras de Pepe Carvalho”, que na próxima sessão da noite começamos a apresentar, voltamos a publicar este texto que saiu já no Estrolabio

Já aqui tenho manifestado o meu desacordo quanto a preconceitos que dividem a literatura em maior e menor. Não conheço géneros menores. Existem, sim, escritores menores. E, mesmo assim, é uma audácia da crítica classificá-los. Muitos são os exemplos de escritores que passaram despercebidos a críticos e a públicos coevos e eclodiram gerações mais tarde.

Não foi o caso de Manuel Vázquez Montalbán (1939-2003), que foi um escritor de grande sucesso, embora haja quem considere frívola a sua escrita e fúteis os seus temas. Não estou de acordo – Vázquez Montalbán tinha um público e escrevia para esse público. Afinal como Shakespeare fez. Se o não ter sucesso em vida não significa que um escritor não mereça a atenção dos vindouros, o ter êxito em vida também não significa que a obra seja feita de transigências aos contemporâneos e perca o significado no futuro. Há exemplos que levam a água a todos os moinhos.

Há dez anos, Manuel Vázquez Montalbán morreu em Banguecoque, cidade onde situou uma das aventuras do seu Pepe Carvalho. Os Pássaros de Banguecoque (1988). Catalão e filho de galegos, escreveu em castelhano, tal como muitos outros escritores catalães. Esta a sua maior transigência para com a contemporaneidade – escolher entre um idioma falado por dez milhões de pessoas e outro que conta trezentos milhões de falantes, optando pelo mais universal..

Segundo o escritor catalão Juan Marsé., autor de O Feitiço de Xangai, Manolo “movimentava-se com toda a facilidade dentro da salada em que então vivíamos, e não se negava a nenhuma das tentações: o futebol, a cozinha, a política». «Tudo o que fazia fazia-o bem, e rapidamente”, acrescenta Joan Manuel Serrat, sobre o qual Vázquez Montalbán escreveu um livro.

Como disse, há quem considere frívola a escrita e fútil a escolha dos temas. Acho que era um homem que não fazia a distinção entre temas sérios e temas frívolos. O futebol, olhado com olhos intemporais é um desporto, um espectáculo ridículo – vinte e dois homens correndo atrás de uma bola… Não é preciso recorrer ao futuro – os norte-americanos, de uma forma geral, consideram o soccer um desporto efeminado e sem sentido. Mas adoram o seu football duro, que à maioria dos europeus se afigura coisa brutal, sem arte, indigna de se chamar futebol. Um americano chamar soccer ao nosso desporto-rei, pode valer-lhe uma carga de trabalhos e algumas equimoses se o disser  num pub de Londres ou de Liverpool.

Vázquez Montalbán adorava o futebol e o seu Barça. E, usando a florbeliana expressão, dizia-o, escrevendo, a toda a gente. Como dizia Francisco Arroyo numa crónica do El País, citando uma metáfora futebolística : «soube levar à primeira divisão três géneros que competiam na terceira – o romance negro, o jornalismo desportivo e o humor». Conheço mal a sua faceta de jornalista desportivo – apenas os seus romances em que o futebol tinha papel central – La soledad del manager (1977) e El delantero centro fue asesinado al atardecer (1988).

A estas três reabilitações, juntaria uma quarta – a da culinária. Lembremos Las recetas de Carvalho, 1989, onde são recolhidas as receitas que Pepe Carvalho vai ditando à sua namorada Charo ou a Biscuter, seu empregado multiusos – de criado a sentencioso Watson – ao longo das suas aventuras. O humor é uma constante na sua obra, surgindo mesmo nos momentos mais dramáticos.

Lembro apenas o hábito de Pepe Carvalho queimar os livros de que não gosta – maneira subtil de criticar (a codícia dos grandes grupos editoriais já deve ter pensado em listar as obras que arderam na lareira de Pepe. E o romance negro?

O romance negro, tal como o definiu Raymond Chandler em The simple art of murder (1945) é o romance dos profissionais do crime. Romance negro porquê? – porque os primeiros romances do género foram publicados na revista Black Mask e em França numa colecção Série noire (ainda um dia hei-de aqui falar do Gato Preto, uma revista, ou melhor, uma “antologia de mistério e fantasia”, que se publicou em Lisboa, entre Janeiro e Junho de 1952, que publicou contos muito curiosos, entre eles a célebre “Invasão dos Marcianos” de H.G. Wells. H. Koch e Orson Welles). Romance negro, também, pelos ambientes em que as histórias decorrem.

Descobrir quem é o assassino, coisa que Agatha Christie (para não falar em Conan Doyle) guardavam para as últimas linhas da derradeira página, é coisa que não preocupa os autores deste género – o assassino é no romance negro irrelevante – o que interessa é o microcosmos em que o crime ocorre e as razões por que é cometido. Nos romances de Vázquez Montalbán, tal como em dois dos seus mestres Raymond Chandler e Dashiel Hammett, as personagens, a começar por Pepe Carvalho, não são vencedores, é gente derrotada, decadente, que se habituou a conviver com uma realidade negra.

Nos diversos cenários dos 25 romances que têm Pepe Carvalho como figura central, Barcelona ocupa um lugar privilegiado – é a cidade de Vázquez Montalbán, que ele conhece palmo a palmo, dos ambientes burgueses e dos meios intelectuais, aos meios mais pobres e aos locais mais sórdidos. Pepe Carvalho, um detective que o autor constrói com a sua própria experiência. Criador e criatura confundem-se. Pepe Carvalho foi o herói que Vázquez Montalbán não gostaria de ter sido.

1 Comment

  1. Não tenho a mesma paciência do Carlos para os tontos, os ignorantes e os possidónios. Quem considera fútil a escrita de um Montalbán, vai para além do que me merece respeito, por se incluir nas desejáveis diferenças de opinião e de gosto (como citava o Bénard da Costa, pode-se não gostar de um autor, sem deixar de lhe reconhecer a qualidade): confessa que é curto de ideias, inculto e literariamente inepto. Até pode ser um “erudito” professor universitário, que não me comove, já que pelas cátedras universitárias e universais se pavoneiam – ao lado dos verdadeiros académicos e de algumas sumidades, que sofrem o estafante convívio dos habilidosos medíocres – algumas das mais notáveis indigências intelectuais, convencidas de que exibem jóias “de marca”, quando mais não ostentam que pechisbeque e abastardadas contrafacções: basta ver, ouvir e ler o enxame de comentadores encanudados e “encatedrados” que infestam os diversos “media”, perante interlocutores babados com a sua “sapiência”, danificando irremediavelmente as mentes das desamparadas audiências… Por outro lado, nas mãos de um grande escritor, nenhum tema é fútil, enquanto um mau escritor avilta o mais importante, universal, profundo ou sublime dos temas. Como diz o Carlos, o que há são escritores menores (sendo que, em relação a alguns, chamar-lhes “escritores menores” já é um exagero ou um excesso de bondade, a pedir canonização).
    Montalbán é um grande escritor. Admito, sem acrimónia, que haja quem não goste (até por ser assaz incómodo para algumas mentalidades e ideologias), mas não reconheço a ninguém inteligente e culto o direito de negar a sua qualidade. Não apenas, na ficção, pelos “policiais carvalhescos” – onde encontramos algumas obras-primas –, mas também por romances de tipo diferente, como, entre outros, “Galíndez”, “Erec y Enide” ou o magnífico (inclusive por uma estrutura narrativa extraordinariamente bem engendrada e dominada) “El Pianista”, um dos meus “grandes romances”, em absoluto. Mas há ainda que não esquecer o ensaísta, o cronista, o biógrafo, de aguda capacidade de observação e análise, sempre temperada com o seu peculiar e irresistível humor. E, por fim (se é que não omito algum outro vector da sua riquíssima produção), o notável poeta.
    O resto é paisagem. Árida.

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