Aqui há coisa de três, quatro anos, em pleno consulado socratista, houve uma epidemia de iberismo que atingiu vastas áreas da classe dominante. Foi o próprio Sócrates a afirmar que Portugal tinha vantagem em ter como vizinha uma «Espanha forte» e já antes fora a entrevista de Saramago a sugerir a integração de Portugal no estado espanhol, com o estatuto de região autónoma. Uma coisa a que chamaram “barómetro de opinião hispano-luso”, uma sondagem levada a cabo pela Universidade de Salamanca e pelo nosso ISCTE, concluía que de 2005 para 2009 a percentagem de portugueses que aprovava tal «integração», subira de 27% para 40%. O El País comentava «La unión política entre España y Portugal es una idea que divide a los portugueses y causa indiferencia en España». Isto dava a ideia de que aquí o projecto da tal anexação seria tema de conversas e constituía uma das grandes preocupações dos portugueses. Ouvimos os portugueses insultarem-se por razões futebolísticas – a questão da integração no Reyno nem lhes ocorre e a sondagem salmantina só pode ser uma aldrabice. Que é como quem diz, pois todos sabemos como os resultados das sondagens são previamente decididos pelo universo escolhido.
Mas a pergunta sobre a pertinência da «integração» figurava nas entrevistas – um grupo de órgãos de informação tentava que o tema pegasse. O então ministro Mário Lino confessou-se iberista. O líder do Banco Espírito Santo, ao Público, defendeu o TGV «como forma de acelerar a construção da Ibéria». Mas a esperança do homem do BES nada tinha a ver com iberismo – achava que o seu banco teria uma expansão maior se estivéssemos integrados num espaço comum com as regiões ricas de Espanha – Madrid e Catalunha». No plano da comunicação, vimos envolvidos nesta tentativa de intoxicação da opinião pública portuguesa, além do El País, e dos portugueses Expresso e Público, onde o capital espanhol tem peso significativo, como é o caso da TVI e da Rádio Comercial, ambos da Prisa – Media Capital. Na própria RTP, paga com os nossos impostos, a inenarrável Rosa Veloso, subia de motu proprio, a percentagem dos apoiantes portugueses para 50%, e fez entrevistas pelas ruas de Madrid. Os grandes aliados de quem quer preservar a independência nacional portuguesa, são, de acordo com as duas sondagens de Salamanca, confirmadas neste aspecto pelo artigo do El País e pelas entrevistas da Veloso, a maioria dos cidadãos do estado vizinho. O que significa que, ainda por cima, teríamos de pedir por favor para nos deixarem entrar.
Quanto ao presidente do BES, Ricardo Salgado, deve ter tido uma recidiva de “!iberismo”, pois recebeu uma remuneração de 552 mil euros no ano passado, menos 31% do que os 804 mil euros arrecadados em 2011, revelou ontem o banco, num comunicado. A queda do salário do banqueiro diz bem dos sacrifícios que o povo português está a fazer. Como pode alguém viver só com 552 mil euros por ano? Numa próxima manifestação, não nos devemos admirar se Ricardo Salgado aparecer com um cartaz que diga – iQue se joda la Troika!
