POESIA AO AMANHECER – 153 – por Manuel Simões

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MANUEL DE PORTUGAL

(   ?  – 1606)

“A FERMOSURA DESTA FRESCA SERRA”

A fermosura desta fresca serra

e a sombra dos verdes catanheiros,

o manso caminhar destes ribeiros

donde toda tristeza se desterra.

O rouco som do mar, a estranha terra,

o esconder do sol polos outeiros,

o recolher dos gados derradeiros,

das nuvens polo ar a branda guerra,

e enfim tudo o que a rara natureza

com tanta variedade nos ofrece,

me está, se não te vejo, magoando.

Sem ti tudo m’anoja e m’avorrece,

sem ti perpetuamente estou passando

nas mores alegrias, mor tristeza.

(De “Poesia de D. Manoel de Portugal”)

Como se sabe, foi Sá de Miranda quem introduziu o soneto em Portugal, forma poética prestigiosa e daí a sua grande proliferação nos sécs. XVI e XVII. Filho do 1º. Conde de Vimioso, também poeta,  Manuel de Portugal produziu uma obra quase exclusivamente religiosa e escrita em castelhano, o que contrasta com a sua fidelidade a António Prior do Crato, o candidato antifilipino. O seu exercício poético, sem ser original, contém certa frescura e autenticidade, não obstante o jogo de antíteses e paradoxos, tão comuns na poesia maneirista.

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