NOVA AVENTURA DE PEPE CARVALHO

Pepe Carvalho foge aos cânones estabelecidos para as figuras literárias dos detectives mais famosos – Sherlock Holmes faz da observação, e da perspicácia com que interpreta o que vê, a sua maior arma. Watson, uma espécie de provedor do leitor, faz de palhaço pobre, um poder de observação vulgar, como o de todos nós, e Sherlock brilha, explicando-lhe  pacientemente como é que as coisas são. Hercule Poirot, outro herói do método dedutivo, tem o capitão Hastings para que as suas celulazinhas cinzentas possam brilhar. Conan Doyle e Agatha Christie  apostam numa receita semelhante – os seus heróis distinguem-se pela inteligência superior que lhes permite ver para além do imediato. Ao conceber a figura de Pepe Carvalho, Manuel Vázquez Montalbán seguiu o cominho antes trilhado por Dashiel Hammett  e por Raymond Chandler – a de anti-heróis, gente causticada pela vida, mas sem arroubos de heroísmo como, por exemplo, o Lemmy Caution de Peter Cheney ou o James Bond de Ian Fleming, ou mesmo o Simon Templar de Leslie Charteris.

E quando se diz que Vázquez Montalbán seguiu o caminho de Hammett e de Chandler, estamos a falar em termos muito gerais. Pepe Carvalho é de uma atipicidade mais rica e profunda do que a de Sam Spade ou Philip Marlowe – vasta cultura, e uma experiência que, em plena Guerra Fria, o faz passar de militante do PCE para agente da CIA. A sociedade barcelonesa dos anos 80 é também mais rica em cambiantes, vinda de um franquismo asfixiante para uma democracia baseada num equívoco – em que os cidadãos se julgam em plena liberdade, e os tubarões vindos do regime fascista, procuram não perder privilégios e, ao invés, começam a aproveitar uma liberdade formal para expandir os seus negócios sujos – este caldo de demagogia, corrupção e crueldade – fornece a Vázquez Montalbán cenários ideais para que Carvalho ganhe uma verosimilhança que à partida pareceria difícil. E não é só a sociedade do estado espanhol que está em mutação – Barcelona vive um momento de euforia com a aproximação dos Jogos Olímpicos de 1992. A cidade transforma-se – a economia paralela cresce. O tráfico de droga aumenta… Pepe Carvalho está como peixe na água…

HOJE Á UMA DA MANHÃ – “EL CASO DA LA GOGO GIRL”

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