POESIA AO AMANHECER – 154 – por Manuel Simões

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FRANCISCO DE PORTUGAL

( 1585 – 1632 )

DÉCIMAS (fragmento)

A que tormentos tão certos,

meus olhos, somos chegados,

pois vistes os bens cerrados

e os males vedes abertos.

Foram gostos vãos e incertos

os que o sono me levou,

certa a pena que deixou.

Acordado o bem perdi,

e o que sem sentido vi

para o sentir me acordou.

(…)

Que admirável desventura

e que vigor tão esquivo

pois sempre sonho que vivo

e padeço a morte dura!

Ai rigorosa ventura!

Ai mal rigoroso e forte,

pois permite minha sorte,

por ser pena mais temida,

que só possa achar a vida

na triste imagem da morte!

(de “Divinos e Humanos Versos”)

Além desta obra, deixou-nos o poeta “Tempestades e batalhas de um cuidado ausente” (1683), além de uma “Arte de galanteria (1670) em prosa e verso. Aqui, como em tantos momentos da poesia barroca, evidenciam-se as contraposições bem/mal, vida/morte, tudo para acentuar os tormentos de um desamor que percorre toda esta poesia como um estereótipo do fingimento.

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