EDITORIAL – A peste grisalha e a matança da Páscoa

Imagem2Hoje é dia 11 de Março. Há 37 anos, a ala spinolista das Forças Armadas desencadeava uma tentativa de golpe militar. Foi rapidamente derrotada. Mas, ainda nesse ano, a barricada que a Revolução levantou, começou a ser derrubada. As “jotas” do bloco central e as Universidades, pelo menos algumas,  formam  gente assertiva e pragmática que tem vindo a reposicionar o que Abril desarrumou. A operação com o nome de código «Matança da Páscoa», falhou. Mas os seus objectivos, decorridas menos de quatro décadas, foram atingidos.  Em Os Intelectuais e a Organização da Cultura, Antonio Gramsci. diz – por outras palavras – que cada grupo social forma os intelectuais necessários ao seu funcionamento e desenvolvimento. São os objectivos desse grupo social que determinam o tipo de formação que deve ser ministrada. E aí temos os “intelectuais” do neo-liberalismo, no governo, no Parlamento, nos órgãos de comunicação…

Em blogues e sites, circula em mensagens de correio electrónico, excertos e até transcrições integrais do artigo que Carlos Peixoto, advogado e deputado do PSD, publicou num jornal regional. Começa por dizer que «Os portugueses estão a desaparecer. O envelhecimento da população portuguesa é uma evidência incontornável.» E aparece a tal pérola de sabedoria: «Segundo estimativa do INE, em 2050 cerca de 80% da população do país apresentar-se-á envelhecida e dependente e a idade média pode situar-se perto dos 50 anos. A nossa pátria foi contaminada com a já conhecida peste grisalha». Apresenta estimativas, e estabelece projecções catastrofistas que apontam para um cenário em que os portugueses desaparecerão e o território será povoado por imigrantes. E chega, depois de um aluvião de informação estatística, à conclusão de que «o envelhecimento dos portugueses e o incremento do seu índice de dependência provocam um aumento penoso dos encargos sociais com reformas, pensões e assistência médica.» (…) «Assustador porque se torna quase impossível que esses encargos sejam suportados pelo cada vez menor número de contribuintes activos. Assustador porque já temos enormíssimas dificuldades em manter a sustentabilidade do sistema de segurança social, do Serviço Nacional de Saúde ou a educação tendencialmente gratuita, de defesa e de segurança interna.» E após mais uma série de dados, conclui «Precisamos, todos, de mudar a nossa mentalidade, de a renovar, de apostar no incremento da natalidade. Se assim não for, envelhecemos e apodrecemos com o país.» No fundo, isto é apenas a formulação daquilo que toda a equipa deste executivo, bem com a grande maioria dos deputados do PSD e do PS pensam. Carlos Peixoto não é pior do que qualquer dos outros – só é mais estúpido. Há outra solução – um pogrom como na “matança da Páscoa” de 1506 se fez em Lisboa. Desta vez, o alvo seriam os velhos – quem tiver cabelo grisalho…

A peste grisalha afecta uma grande parte da população. E de facto, nós os que temos o cabelo encanecido, devemos merecer isto. Com os impostos de longas carreiras contributivas pagámos a educação a Coelhos, Relvas e Peixotos, deixámos que a peste suína do egoísmo neo-liberal se espalhasse entre uma parte da juventude. A nossa pátria, diz o Peixoto, foi contaminada pela peste grisalha. Estamos a falar de pátrias diferentes e se os patriotas do futuro fossem todos como o Peixoto, se calhar melhor seria que a pátria encerrasse.

1 Comment

  1. A imbecilidade deste Peixoto não se manifesta apenas na referência à “peste grisalha”. Notável é também o cagalhoto que expele sobre o “desaparecimento dos portugueses” e a sua “substituição por imigrantes”. O atrasado mental deve ter (des)conhecimentos históricos que me foram malevolamente subtraídos. E terá feito mal a transição do ideário fascista que, por muito novo que seja, lhe escorre, em farrapos, da prosa torpe – em que “éramos todos portugueses, aquém e além-mar” -, para os apertos da redução territorial ao rectângulo europeu e ilhas, com a respectiva população. Mas porém todavia contudo e não obstante, acontece que da dita população já constavam descendentes de originários das ex-colónias africanas, da “Índia Portuguesa”, de Timor, de Macau. E também dos escravos que as cristianíssimas classes dominantes foram “adquirindo”, para seu serviço, ao ritmo das igualmente abençoadas Descobertas e actividades económicas e estatutos sociais subsequentes.
    Nesta pátria, fundada pelo filho de um borgonhês e de uma castelhana (ou leonesa, se quiserem), quem terá direito, no sufoco das estreitas meninges do Peixoto, à designação de português? Teremos de recorrer à detecção dos portadores de ADN dos “cro-magnons” que por cá andaram, eventualmente com alguma mistura de “neanderthais”? Ficamos pelos celtas, lusitanos, cinetes e fenícios? Aceitamos ou não os cartagineses e romanos? E os vândalos, suevos e alanos, búrios e visigodos, contam ou não? E os berberes, que constituíam a maioria da moirama que por aí veio, no século VIII, por cá se reproduziu em conhecida misturada com os, então, autóctones e cujos descentes “andem por aí” às cabazadas? E mais alguns que me terão escapado neste breve rol? Há que expulsar esses “imigrantes”? Onde é que colocamos a barreira separadora entre os “verdadeiros portugueses” e os “imigrantes”?
    Que havemos de fazer aos descendentes de um tal Listopad (o Peixoto não conhece, qu’ele não sobrevive no “habitat” cultural desta estranha criatura, afoga-se)? Exportamo-los para onde? E a uma namorada que tive, cujos antepassados eram irlandeses, africanos, italianos e sei lá que mais (com magníficos resultados)?
    Eis uma angústia que não assalta o Peixoto. Mas descansem, que não é que a criatura não tenha, eventualmente, algumas semelhanças com a espécie humana; é só porque, no estádio de evolução dos primatas em que se integra a sua espécie, tal coisa não cabe no exíguo espaço mental de que dispõe.
    Para a inteligência média e as potencialidades de conhecimento e elaboração intelectual do “homo sapiens sapiens” do início deste terceiro milénio, é insofismável que esses imigrantes e seus descendentes, que se integram no país que os acolheu e se hão-de misturar cada vez mais com a população local (cro-magnons, vândalos, celtas, berberes, hindus, da linhagem de ex-escravos…?) são tão portugueses como os anteriores imigrantes. Para alguma coisa o futebol há-de servir: para definir o “tipo característico do português”, basta ver como, em dia de jogo da selecção, o filho já quarentão de um imigrante paquistanês, dono de uma frutaria cá do bairro, se prepara, ansioso, de cachecol “nacional” ao pescoço, para assistir ao prélio com os amigos; ou reparar no colorido entusiasmo da rapaziada de origens étnicas claramente muito diversificadas – que já vai de “escurinhos” (esta é propositada) a uns eslavos deslavados – que festeja a vitória, o apuramento, a passagem na eliminatória!
    O futuro, queiram ou não os racistas e xenófobos, será MUITO, MAS MUITO MESTIÇO.
    Quanto à “peste grisalha”, ainda ontem uma fêmea desta “classe” explicava pacientemente na SIC, ante as dúvidas levantadas pela formatação em “evidências do pensamento dominante” do inteligentíssimo e eticamente irrepreensível jornalista Ricardo Costa (bastólhar pràquela test’alta e erma, pra se ver questáli um dos sumos pilares do sistema) que o problema da maioria das outras criaturas que se sentavam em redor da mesma mesa era acreditarem piamente em que as previsões catastróficas que evocavam eram “uma fatalidade”. E é aí que reside a suposta irresolubilidade de uma igualmente suposta evolução demográfica. A fatalidade reside na “lógica” do sistema económico em que nos enfiaram e no seu suporte ideológico. Fora dessa lógica (tida também por inultrapassável por quem nunca reparou que TUDO, na História da Humanidade, tem por destino… passar à História!) há uma imensidade de soluções possíveis, desde o apoio real às famílias, na sua diferenciação progressiva (emprego assegurado aos progenitores, condições adequadas ao sustento e educação da prole, segurança social pública generalizada e eficaz) à possibilidade de aproveitar, produtivamente, as capacidades intelectuais e a experiência dos mais velhos, cuja subsistência se estende, em plenitude, praticamente ao ritmo do aumento da esperança e DA QUALIDADE de vida, SEM LHES ROUBAR O DESCANSO A QUE TÊM DIREITO, após dezenas de anos de trabalho e contribuição para o desenvolvimento de cada país e da sua economia. Noutro enquadramento ideológico, em que “a economia seja para o homem e não o homem para a economia”, quantos “pestíferos grisalhos” não gostariam de dar o seu contributo produtivo voluntário, em doses mais moderadas (de acordo com os desejos de cada um), devidamente retribuído, definido por tarefas ou com horários muito flexíveis? Mas isso, que poderia ser aprofundado em todas as suas variáveis (e já está a sê-lo, por esse mundo fora, em trabalhos universitários e publicações alarvemente ignoradas pelos Peixotos, pois as propostas de solução não convêm aos interesses instalados), não se compadece com uma estreita e árida perspectiva de um sistema económico que só sobrevive se cada indivíduo comprar um telemóvel de seis em seis meses ou um carro de dois em dois anos, o que, por sua vez, não se compadece com o poder de compra cada vez mais reduzido dos ansiados consumidores, despedidos pelas mesmas fábricas que pretendem vender os produtos que ele deveria comprar! Isto, sim, é que é a verdadeira “quadratura do círculo”! Em exposição permanente no Museu dos Espantalhos que Mandam num sistema agonizante.

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