FARPA – por Fernando Correia da Silva

Um café na Internet

logótipo um café na internet

Ficar ocioso é estar doente, trabalhar é ter saúde! Aos 17 anos Cesário Verde arregaça as mangas na loja do seu pai na Rua dos Fanqueiros, em Lisboa: escreve cartas para o estrangeiro, lança débitos e créditos, calcula a conversão das moedas, recebe caixeiros viajantes, compra e vende, pesa pregos e parafusos, monta e oleia fechaduras, experimenta ferramentas, atende calafates e marceneiros, ao balcão ouve, entende e vive as aflições do povo miúdo que labuta para ganhar a vida.

Consome intensamente o dia. Nos fins de tarde, e à noite, gosta de ler, escreve poemas. Mas detesta abstrações, acha que o pensamento é o patamar superior dos sentidos, tangem-no excitados, sacudidos, o tato, a vista, o ouvido, o gosto, o olfato. Acha que um poema deve ser um cristal, superfícies várias, cada verso a refletir uma das faces do real.

Para escândalo do pai (literatos são ociosos…), em 1873 Cesário matricula-se no Curso Superior de Letras (como se elas lá estivessem…). Temor infundado, o de José Anastácio Verde: Cesário é alérgico à retórica, à literatice impingida e, poucos meses depois da matrícula, entra em conflito e abandona o Curso.

Cesário tem o furor da discussão, diz sempre o que pensa e bate-se por aquilo que acha certo, não concilia. Mas quando reconhece que está errado, não hesita em dar o braço a torcer, frontalidade. Esta sua postura irá atrair antipatias em vários meios, principalmente nos literários.

Da sua passagem pelo ateneu sobra-lhe apenas a amizade de Silva Pinto, candidato a escritor, cujo pai, um industrial, o expulsara de casa porque ousara liderar uma greve dos seus operários… Silva Pinto tem um ódio febril aos burgueses, é um republicano, é um socialista inflamado pela Comuna de Paris. Tudo nele é paixão, vê tudo a preto e branco, alto contraste, ou explorador ou explorado, ou isto ou aquilo, ou sim ou não. Começa por ter um desprezo radical por Cesário, esse aprendiz de comerciante, esse burguesinho metido a escritor… Mas ao ler os seus poemas converte-se no seu mais fervoroso admirador, no amigo para toda a vida. Cesário ampara-lhe os desequilíbrios, sensibiliza-o aquele amor alucinado aos oprimidos.

 – Como tu tens tempo, meu amigo, para sofrer tanto!

 Silva Pinto responde-lhe:

 – Como tu tens tempo, meu amigo, para me acompanhar no sofrimento!

 Eduardo Coelho é o diretor do Diário de Notícias. Em tempos idos fora caixeiro na loja de José Anastácio Verde e continua a respeitar o antigo patrão. É quanto basta para Cesário conseguir publicar no jornal os seus primeiros poemas. Um deles, Esplêndida, escrito ao jeito de João Penha (Vinho e Fel), paródia anti-romântica, merece a Farpa n.º 22  de Ramalho Ortigão:

 “(…) Averigua-se que o realismo baudelaireano está fazendo mais numerosas e mais lamentáveis vítimas do que o velho romantismo de Byron, de Lamartine e de Musset. (…) Tal é a deplorável influência (…) na poesia moderna representada na obra de um dos seus cultores, o sr. Cesário Verde, ao qual sinceramente desejamos que estas modestas observações contribuam para que continue a ilustrar o seu nome, tornando-se cada vez menos Verde e mais Cesário.”

Uma farpa desperta instantaneamente a braveza de um touro. Esta Farpa irá certamente despertar o realismo instantâneo de Cesário.

Leave a Reply