EDITORIAL – Trolls, trolhos e provocadores

Imagem2Em O Senhor dos Anéis, o famoso romance de J.R.R. Tolkien, há uma figura repulsiva, mas central, de um troll – Gollum.  Em linguagem cibernáutica, um troll é um provocador que usa a caixa de comentários dos blogues para desestabilizar. As motivações são diversas – vão desde a auto-afirmação, até à sabotagem política. O troll de Tolkien, baseado numa figura mítica, e os trolls que afectam blogues e redes sociais, correspondem a acepções diferentes do mesmo vocábulo.  Em português, temos a palavra trolho, usada sobretudo no Minho, que designa um homem baixo, gordo, desajeitado, com um carrapito, repulsivo. Talvez haja uma raiz latina comum. Talvez não haja – mas todos têm uma acepção comum – são repulsivos.

Há dias, falámos aqui da necessidade de filtrar comentários, dado o aparecimento de nesse espaço de debate surgirem provocações motivadas por mera estupidez ou por deliberada provocação. Circula agora a informação de que o Parlamento Europeu investiu 2,5 milhões de euros numa campanha de propaganda para infiltrar “trolls” nas redes sociais com o objectivo de “controlar a opinião pública”, sobretudo em casos onde se manifeste “eurocepticismo”. A formação dos “trolls” começa ainda este mês, para que a sua acção se faça sentir antes e durante as eleições europeias  de 2014.

Numa altura de cortes orçamentais, é no mínimo curioso que se dê tanta importância às redes sociais e blogues ao ponto de investir uma verba tão avultada na sabotagem de opiniões que contrariem a ideia da «construção europeia». Antes de vivermos «em democracia», a estes trolhos chamávamos-lhes provocadores, pides, além de outras designações em vernáculo que deixamos ao sabor da memória e da imaginação de quem nos leia.

A democratização do regime democrático, que um grupo de cidadãos pede em manifesto ontem divulgado, passa principalmente pela erradicação de práticas que negam a própria essência da democracia. Ou seja, pela exclusão das liberdades de quem aproveita a Liberdade para atingir a opressão. Temos de defender a democracia da legião de trolhos que enriquecem, que roubam, que subvertem o sistema em seu proveito. Gollum foi destruído pela avidez.

Enquanto os cidadãos não assumirem a sua cidadania na plenitude do conceito – com os deveres e os direitos que o estatuto de cidadão comporta – os trolhos e os trolls irão saciando a sua avidez e prosperando.

Leave a Reply