MUNDO CÃO – O QUE O SR. PERES NÃO DISSE… – por José Goulão

Há dias o mundo tomou conhecimento de mais uma caso de morte de um preso político numa prisão israelita. As autoridades do Estado de Israel explicaram que foi “acidente”, na verdade não é a primeira morte que fica explicar, há mais de cinquenta anos que os palestinianos morrem às mãos de israelitas por “acidente”, por “segurança”, por “terrorismo”, “por não respeitar o recolher obrigatório” e outras doenças sui generis.

Como se nada se passasse, o Parlamento Europeu recebeu agora, com toda a solenidade, o presidente do Estado de Israel, o bem conhecido Shimon Peres, que por sinal já recebeu um Nobel da Paz, coisa que deixou de espantar.

O visitante falou em plenário, sem dar direito a contraditório, atacou quem quis atacar, explicou aos europeus e à comunidade internacional o que devem fazer com o Irão, com a Síria, com o Hezbollah, disse até à ONU – entidade cujas resoluções se recusa a aplicar – o que deve fazer na situação síria. Acrescentou ainda que o Irão “é o maior perigo para a paz mundial”, mas num parlamento, por definição uma casa de debate, não foi dado a ninguém o direito de ao menos perguntar “Qual paz?”

Shimon Peres afirmou mais uma vez que não há outra solução para o problema israelo-palestiniano que não seja a existência de dois Estados, coisa que há muito se tornou fácil de repetir, e anunciou que o novo governo israelita, com Netanyahu mais uma vez à cabeça, irá reabrir as negociações de paz – as mesmas que há muito vem sabotando.

O mais importante, afinal, foi o que o Sr. Shimon Peres não disse. Se o governo do Estado de Israel vai, no mínimo, suspender a ocupação continuada, através da colonização, dos territórios da Cisjordânia e de Jerusalém Leste onde deverá ser criado o Estado que falta para que sejam dois. Só haverá Estado palestiniano se tiver território para existir; ora esse território é o mesmo que a colonização vem suprimindo sob os olhos de muitos e benévolos parlamentos e governos de todo o mundo, sempre prontos a receber os dirigentes israelitas como democratas de mãos limpas e acima de qualquer suspeita. Enquanto continuam a falar, sem pudor, na “solução de dois Estados”.

O presidente do Parlamento Europeu, o alemão Martin Schultz (grupo Socialista), achou por bem, aliás, assinalar a visita do Sr. Peres sublinhando que entre europeus e israelitas um dos princípios de união é “o respeito pelos direitos humanos”. Há coisas que se dizem por protocolo. Outras, como esta, são do género das que transformaram a política internacional e a diplomacia numa lixeira sangrenta.

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