Nota da Coordenação: Estes textos que, sob o título genérico de “Saúde; uma emergência nacional”, Carlos Leça da Veiga tem vindo a publicar, foram escritos em 1974.
O mercado liberalizado ao máximo, que tanto desvanecimento causa aos possidentes de agora, tem de ter presente, para contrariá-lo e domesticá-lo, a concorrência forte – fortíssima – do Estado. Se assim não acontecer quem, por fim, acabará por destruir o Estado – suprema contradição – não serão os seus tradicionais inimigos políticos – de momento, fruto dos seus erros, em fim de estação – mas, sim, os seus mais tradicionais, devotos, fiéis e fervorosos apaniguados.
Afinal não têm sido estes últimos – mais outra das suas muitas contradições – quem, por onde passam conseguem, por sistema, acabar com as famílias tradicionais e com as nacionalidades? O que tem sido, como nunca foi outra coisa mais que a exportação cultural dos yanques?
Para quê destruir o Estado ou reduzi-lo a um mero ornamento, à semelhança daquilo que, com inutilidade manifesta, já foi num passado remoto?
Por muito que na sua formalização o Estado pareça ser demasiado serôdio não poderá deixar de dizer-se que, desse modo, apesar de tudo, sobretudo no decorrer do século XX, a exploração do homem pelo homem, por força desse Estado, sofreu entraves de monta e os cidadãos, em larga medida, puderam conhecer regalias sociais indiscutíveis.
Por muitos defeitos que possam apontar-se-lhe – e não serão poucos – o Estado (não importará, mais uma vez, estar a repeti-lo) é uma obra da sociedade humana, um produto efectivo da vontade humana, afinal, uma obra da cultura ou da civilização, isto conforme queiram chamar-lhe e por cuja influência, mau grado tantos atropelos, crimes e injustiças, bem feitas as contas, no mundo de influência ocidental nesse, pelo menos, foi possível colherem-se benefícios de toda a ordem.
Como compatibilizar a defesa exaltada do liberalismo que usa e abusa do seu armamento guerreiro imensamente mortífero, com o regime político considerado democrático?
As leis do futuro serão ditadas pelos estados-maiores das transnacionais?
A exploração desenfreada e desapiedada do Homem e da Natureza passará a ser, de facto, a regra máxima que o liberalismo está a querer impor ao Mundo?
A Mundialização imposta criminosamente por um só Estado – os Estados Unidos da América do Norte ou, se quiserem, a sua Administração – pretende e já consegue perverter a inevitável Globalização que a todos devia unir.
O descaramento das direcções políticas que, agora, por toda a parte, conseguem impor o seu dirigismo sobre os Povos já vai ao ponto de quererem fazer vingar as regras do liberalismo mais extremo e, para cúmulo, insistem fazê-lo com a invocação constante da defesa da Democracia tal como, com uma insistência despundonorosa, sempre, em nome dos Direitos do Homem!
