BRITES – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

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Ó Brites de Almeida: ficaste famosa por seres a Padeira de Aljubarrota, aquela que matou sete castelhanos à pazada. Todos esquecem ou fazem por esquecer o teu passado. Mas eu não esqueço, bem me lembro dele. Cerca de 1350 nasceste no Algarve, sul do país. Os teus pais são muito pobres, vivem dos magros lucros que lhes dá uma pequena taberna.

Nasces e logo te revelas menina robusta. Os teus pais ficam muito contentes, irão ter uma preciosa ajudante nos trabalhos quotidianos, lavar e encher as pipas, servir canecas de vinho aos clientes. Enganam-se, coitados… Basta um garoto chegar à porta da taberna a provocar-te com um dichote, para largares logo o trabalho que tens em mãos e correres atrás do provocador. Se consegues apanhá-lo, dás-lhe um enxerto de porrada que ficará famoso. E tantos são os enxertos que rapidamente ganhas a alcunha de Maria Rapaz.

Ó Brites, creio entender-te, canga, seja ela qual for, tu não aceitas.

Cerca de 1370, terás tu uns vinte anos, ficas órfã. Não te apetece continuar o negócio do teus pais, porque ele obriga a muitas curvaturas de espinha ante os clientes. Vendes os parcos bens que herdaste e metes-te a caminho de serra em serra, de praia em praia, de terra em terra, de feira em feira. Ao relento, dormes ao lado de vagabundos, soldados, frades e pedintes, mas ai daquele que tentar apalpar-te tirando partido do teu sono…

Comida? Muitas vezes apenas uma côdea e meia dúzia de azeitonas.

Ora com este, ora com aquele, praticas o jogo do pau, logo a seguir aprendes a esgrimir e rapidamente ganhas fama de valentona. É quanto basta para que um dia um soldado alentejano, sorrindo, por escárnio te proponha casamento. Também sorrindo, tu respondes:

– Vamos lutar. Se venceres, serei tua mulher.

– Vamos a isso!

Espada ensarilhada contra espada, ó Brites, evitas um bote e dás uma cutilada tão profunda que o soldado tomba morto. Um grave problema: matar um soldado é crime, seja em que circunstância for. Para fugir da mais que certa prisão resolves abalar para Espanha.

Embarcas na Ria Formosa, em Faro, mas não consegues chegar à Andaluzia porque piratas mouros tomam a nave em que viajas e vendem-te como escrava a um grande senhor da Argélia, dono também de dois outros portugueses. Mas vocês três unem-se, projetam a fuga, conseguem escapar, roubam um barco e tornam a Portugal. Daqui para a frente já toda a gente sabe a tua história, ó Brites, ó Padeira de Aljubarrota…

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